quarta-feira, 8 de junho de 2016

O ataque das enguias eléctricas a cavalos relatado por Humboldt há mais de 200 anos é mesmo possível


Na sua viagem à Venezuela, o famoso naturalista Alexander von Humboldt viu enguias eléctricas a saltarem da água para atacar cavalos com descargas eléctricas poderosas. Apesar de muito citada, havia dúvidas sobre a veracidade desta descrição. Agora, um cientista observou este tipo de comportamento.

Seriam mais de 30 cavalos num lago repleto de enguias eléctricas, no início de 1800, na Venezuela. Segundo as descrições do naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), as enguias nadaram em direcção aos cavalos, saltaram para cima deles e atacaram-nos com descargas eléctricas. O lago estava rodeado de homens que impediram os cavalos de fugir. Podemos imaginar a agitação nas águas. Houve cavalos que tombaram com as descargas eléctricas e foram pisados pelos outros. Dois morreram. Mas Humboldt conseguiu retirar do lago cinco enguias para fazer experiências, o grande objectivo de todo o aparato.

Publicada em 1807, a descrição do sucedido foi suficientemente forte para ter direito a uma ilustração. Mas, apesar de o episódio ter sido recuperado várias vezes por outros cientistas, o relato foi ganhando a aura de lenda. Não houve outras descrições de comportamentos das enguias eléctricas semelhantes ao da história de Humboldt. Os cientistas foram duvidando da veracidade das palavras “poeticamente transfiguradas” do naturalista, como se escreve num artigo de 1947.


“O comportamento agressivo das enguias, tomando a ofensiva contra os cavalos, parece a parte mais questionável e fantástica da história”, refere o biólogo Kenneth Catania, da Universidade Vanderbilt, em Nashville, nos Estados Unidos, num artigo publicado nesta segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, que reaviva este episódio, dando-lhe novos contornos científicos. É que Kenneth Catania observou pela primeira vez em laboratório este comportamento das enguias eléctricas a saltarem contra objectos aplicando-lhes descargas eléctricas. E quanto mais alto o salto, mais forte era a descarga, descreve o cientista no artigo. Só podemos adivinhar o sofrimento daqueles cavalos, há mais de 200 anos.

A viagem histórica de Alexander von Humboldt, em que recolheu inúmeros animais e plantas, iria levá-lo mais tarde a cerca de 400 metros do topo do Chimborazo, um vulcão extinto no Equador, que faz parte da cordilheira dos Andes e atinge a respeitável altitude de 6310 metros. A escalada e todas as observações anteriores tiveram uma profunda influência na visão de Humboldt da natureza, levando-o à formulação do conceito de zonas de vegetação do globo, diferentes entre si de acordo com a latitude e a altitude onde se encontram. Esta relação nunca tinha sido feita e obrigou a uma nova abordagem holística da natureza, que lançou as raízes da ecologia e da conservação da natureza.

Em 1800, então com 31 anos, Humboldt ainda estava longe de ter o reconhecimento mundial que iria receber mais tarde, influenciando disciplinas como a Biologia e a Geografia, áreas como a literatura e as artes plásticas, e nomes como o evolucionista britânico Charles Darwin, o escritor americano Henry David Thoreau, o biólogo alemão Ernst Haeckel e Johann Wolfgang von Goethe (muito amigo de Humboldt, diz-se que o escritor alemão se inspirou nele e na sua sede de conhecimento para criar o académico Heinrich Faust, a personagem central de Fausto). Mas foi o espírito desde sempre curioso de Humboldt que desencadeou o episódio das enguias eléctricas, na povoação comercial de Calabozo, na Venezuela.

“Quando os habitantes locais contaram a Humboldt que muitos dos lagos pouco profundos da área estavam repletos de enguias eléctricas, mal conseguia acreditar na sua sorte. Desde as suas experiências com a electricidade animal na Alemanha, Humboldt sempre quisera examinar um desses extraordinários peixes. Ouvira estranhas histórias acerca de criaturas de metro e meio que podiam descarregar choques eléctricos de mais de 600 volts”, conta-se em A Invenção da Natureza – As Aventuras de Alexander von Humboldt, o Herói Esquecido da Ciência, da escritora Andrea Wulf, editado recentemente em Portugal pelo Círculo de Leitores.

A obra de Andrea Wulf, de 2015, é uma biografia que resgata as memórias do alemão, cartografando não só a sua vida e as suas viagens, mas também as suas relações e a influência que teve noutras personagens importantes do século XIX. O caso das enguias eléctricas situa-se na secção da viagem do naturalista pelas Américas entre 1799 e 1804. Na altura, a dificuldade de apanhar as enguias, conhecidas pelos seus choques eléctricos, levou os habitantes a recorrerem aos cavalos para esgotar a energia das enguias. “A intensidade dos choques eléctricos ia diminuindo e as enguias enfraquecidas fugiam para a lama, de onde Humboldt as retirava com paus”, conta-se no livro.

“A primeira vez que li a história de Humboldt pensei que era completamente bizarra”, diz Kenneth Catania, citado num comunicado da Universidade Vanderbilt. “Por que é que as enguias iriam atacar os cavalos, em vez de nadarem em fuga?” O investigador trabalha com estes peixes, conhecidos por terem no ventre órgãos que lançam descargas eléctricas. Normalmente, estas descargas são usadas para imobilizar as presas dentro de água como se tratasse de uma arma Taser. Mas o ataque aos cavalos é um comportamento de defesa.

A curiosidade do investigador foi aguçada quando observou a reacção das enguias eléctricas, da espécie Electrophorus electricus, quando as apanhava num tanque. O cientista usava uma rede com aro e cabo de metal, capaz de conduzir electricidade, e calçava luvas de borracha para se proteger de possíveis choques eléctricos. “De vez em quando, a enguia deixava de tentar fugir e atacava a rede saltando para fora de água enquanto pressionava o ‘queixo’ no cabo da rede, ao mesmo tempo que gerava uma série de choques eléctricos de alta voltagem”, explica o comunicado.

Perante este fenómeno, Kenneth Catania tentou compreender o que estava a acontecer. Para isso, usou vários objectos que submergia nos tanques e mediu as descargas eléctricas. O investigador descobriu que as enguias só costumavam reagir a objectos que conduzem electricidade – uma vantagem adaptativa, já que na natureza os animais conduzem electricidade – e observou que quanto menos água havia no tanque, menos hipótese as enguias tinham de fugir e mais atacavam.

Além disso, o ataque seguia um comportamento exacto. O objecto tinha de estar submerso. A enguia erguia-se da água e ia tocando no objecto a alturas cada vez maiores. Ao medir a descarga, o cientista verificou que quanto mais alto a enguia tocava no objecto, mais distante estava da superfície da água, e por isso mais forte era a descarga. “Isto permite às enguias darem um choque com uma quantidade máxima de energia a animais terrestres parcialmente submersos que invadem o seu território”, explica o cientista.

Um dos objectos usados foi uma cara artificial de crocodilo, na qual foi instalada uma rede eléctrica de luzes LED à sua superfície. Sempre que a enguia dava uma descarga eléctrica, as luzes acendiam-se. “Quando se vê as luzes LED a acenderem-se, pode-se pensar nelas como as terminações de nervos da dor a serem estimulados. Isto dá uma ideia de quão efectivos os ataques podem ser”, refere Kenneth Catania.

“Muito provavelmente as enguias eléctricas usam um ataque agressivo para se defenderem, porque não podem fugir”, lê-se no artigo. Para o investigador, esta descoberta corrobora as observações feitas por Alexander von Humboldt. “Os eventos ocorreram para o final da época seca, e as enguias estavam presas numa bacia lamacenta”, explica o artigo. “Parece razoável sugerir que Humboldt observou um comportamento semelhante.”

Com as enguias nas mãos, Humboldt e o seu parceiro de viagem, o botânico francês Aimé Bonpland (1773-1858), testaram os choques eléctricos dados por estes peixes das mais variadas formas, sendo eles próprios alvo dos ataques. Como tudo o que era alvo de atenção do naturalista, também este episódio foi integrado na sua visão sobre a natureza. “Ao observar o encontro medonho entre as enguias e os cavalos, Humboldt reflectiu nas forças que, de formas diversas, criavam um relâmpago, ligavam o metal ao metal e moviam as agulhas das bússolas”, lê-se na obra de Andrea Wulf. “Como acontecia tantas vezes, começava por um pormenor ou uma observação e, em seguida, voltava-se para um contexto mais alargado. Tudo ‘flui a partir de uma fonte’, escreveu, ‘e tudo se funde num poder eterno e omnipresente’.”

Notícia retirada daqui - Nicolau Ferreira

domingo, 5 de junho de 2016

Cientistas propõem projecto para criar genoma humano sintético


Um grupo de 25 cientistas propôs nesta quinta-feira um projecto ambicioso para criar um genoma humano sintético, ou rascunho genético, uma ideia que levanta preocupações sobre até que ponto é que a vida humana pode ou deve ser construída.

Um genoma humano sintético poderá tornar possível fabricar humanos sem parentes biológicos – criando o espectro, por exemplo, do aparecimento de humanos por encomenda com características genéticas "melhoradas".

Os cientistas disseram que esse não era o objectivo. Alegam que as aplicações potenciais de um genoma humano sintético incluem fazer crescer órgãos humanos para transplantes, criar imunidade contra vírus, criar resistência contra o cancro e acelerar o desenvolvimento de vacinas e fármacos usando células e órgãos humanos.

O projecto tem como objectivo construir um genoma sintético e testá-lo em células em laboratório dentro de dez anos. A ideia, que surgiu numa reunião em Maio, na Universidade de Harvard, nos EUA, em que participaram cientistas exclusivamente convidados para o encontro – tendo por isso sido alvo de denúncias como sendo demasiado secreta –, foi revelada nesta quinta-feira num artigo na revista Science escrito pelos cientistas envolvidos.

Os cientistas reconheceram que a ideia é controversa e disseram que iriam procurar o envolvimento público e ter em consideração implicações éticas, legais e sociais. A maioria dos investigadores trabalha em universidades e noutras instituições dos Estados Unidos. O trabalho foi baptizado "Projecto de Escrita do Genoma Humano".

Os cientistas esperam obter 100 milhões de dólares (89,75 milhões de euros) de financiamento público e privado para iniciar o projecto este ano e estimam um custo total abaixo dos 3000 milhões de dólares (2692 milhões de euros) gastos no Projecto do Genoma Humano, que mapeou completamento o ADN humano pela primeira vez em 2003.

Um genoma sintético envolveria o uso de químicos para criar o ADN presente nos cromossomas humanos. O novo projecto “irá incluir a construção de linhas celulares com o genoma humano completo e de linhas celulares com o genoma de outros organismos com relevância na agricultura e na saúde, ou de organismos necessários para interpretar as funções biológicas humanas”, escreveram os cientistas, liderados pelo geneticista Jef Boeke, do Centro Médico Langone da Universidade de Nova Iorque, no artigo.

Os cientistas disseram que um genoma sintético é uma “continuação lógica” dos instrumentos de engenharia genética usados nas últimas quatro décadas de um modo seguro pela indústria de biotecnologia.

O grupo também inclui especialistas da Escola Médica de Harvard, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, da Universidade de Yale, da Universidade de Columbia, da Universidade da Califórnia em Berkeley, da Universidade de Washington, todas elas instituições nos Estados Unidos, e da Universidade de Edimburgo, na Escócia, do instituto Autodesk Research, da empresa Bioeconomy Capital e de outras entidades.

Cientistas não envolvidos referiram possíveis benefícios do novo projecto, como conhecer-se a função de vastas partes do genoma que continuam misteriosas e ajudar a compreender melhor como é que os genes são regulados e por que é que há tanta variedade genética entre indivíduos e populações humanas.

“Irá também fornecer tecnologias para a terapia genética avançada e levar a uma compreensão muito maior de como o genoma está organizado e de como é que isso se altera nas doenças celulares”, disse Paul Freemont, co-director do Centro para a Inovação e Biologia Sintética no Imperial College de Londres. “O projecto não é assim tão controverso como alguns observadores estarão a dizer”, observou ainda John Ward, professor de Biologia Sintética da University College de Londres. “Não há nenhum pedido para se fazer um ser humano inteiro.”

O projecto surge numa altura de debate intenso sobre a ética de usar em embriões humanos o novo instrumento de edição genómica chamado CRISPR-Cas9, depois de cientistas chineses terem publicado em 2015 os resultados de um estudo que envolvia o uso daquela técnica em embriões humanos, levando a pedidos de proibição global deste tipo de investigação.

Os defensores dizem que a CRISPR pode ajudar a acelerar o esforço dos cientistas em corrigir e prevenir as doenças hereditárias, que passam no genoma de pais para os filhos. Mas os críticos preocupam-se com os efeitos desconhecidos nas novas gerações e a tentação de futuros pais alterarem o genoma de embriões para melhorar características como a inteligência e as capacidades atléticas.

Informação retirada daqui
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