sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O "Homo sapiens" terá começado a espalhar-se pelo mundo muito mais cedo, há 125 mil anos

E se, há uns 125 mil anos, muitas dezenas de milénios antes de se lançarem à conquista da Europa e do resto do mundo, vindos do seu berço africano, os primeiros humanos modernos tivessem começado por atravessar um estreito braço de mar para se instalarem em terras que hoje fazem parte dos Emirados Árabes Unidos? Uma equipa internacional de arqueólogos, liderada por Hans-Peter Uerpmann, da Universidade Eberhard Karls de Tubingen, sugere precisamente isso, com base em escavações realizadas na localidade de Jebel Faya, a uns 50 quilómetros do Golfo Pérsico. Os seus resultados são publicados sexta-feira na revista "Science".

Estes machados encontrados na Península Arábica têm 125 mil anos e levaram os cientistas a uma nova hipótese (Universidade de Tübingen)

O debate sobre como e quando os primeiros homens modernos emigraram de África e se espalharam pelo mundo vem de longe. Há quem diga que houve uma única vaga de migração e quem diga que houve várias. Mas seja como for, os dados conhecidos até aqui indicavam que o êxodo tinha acontecido há mais ou menos 60 mil anos. Quanto à rota seguida por aqueles emigrantes até a Europa e Ásia, também aí havia consenso: através do Vale do Nilo e do Médio Oriente.

O que os cientistas encontraram agora na Península Arábica são ferramentas que, segundo eles foram fabricadas com tecnologias semelhantes às utilizadas pelas populações de "Homo sapiens" que viviam no Leste de África, mas diferentes das tecnologias originárias do Médio Oriente. Isso não seria problemático se elas tivessem menos de 60 mil anos de idade. Mas acontece que, quando foram datadas (pela técnica dita de luminescência), revelaram ter... 125 mil anos.

Ou seja, estas ferramentas — pequenos machados e lâminas de pedra, entre outros — parecem contar uma história diferente. Uma história de emigração directa, há muito mais tempo, de África para a Arábia — e daí, dizem os cientistas, para o Crescente Fértil e para a Índia. Porém, nem todos os especialistas concordam com esta interpretação.

“Os humanos ‘anatomicamente modernos’ — como nós — emergiram em África há uns 200 mil anos e a seguir povoaram o resto do mundo”, diz em comunicado Simon Armitage, da Universidade de Londres e co-autor do trabalho. “Os nossos resultados deveriam estimular uma reavaliação da maneira como nós, os humanos modernos, nos tornamos uma espécie global.”

Os cientistas analisaram ainda as condições climáticas que reinavam na região há uns 130 mil anos, durante o último período interglaciar, para ver se a passagem de África para a Arábia teria sido fácil. E de facto, concluíram que o estreito de Bab al-Mandab, que separa a Península Arábica do Corno de África, tinha naquela altura pouca água devido ao baixo nível do mar, permitindo a passagem em segurança sem grandes problemas.

E mais: a Península Arábica era então uma região muito mais húmida, com vegetação abundante, com lagos e rios — muito mais acolhedora do que hoje. “Em Jebel Faya”, salienta Armitage, “a datação revela uma visão fascinante, na qual humanos modernos emigraram de África muito mais cedo do que se pensava, ajudados pelas flutuações globais do nível do mar e pelas mudanças climáticas.”

Uma voz dissonante

Num artigo jornalístico que acompanha na revista "Science" a publicação dos resultados da datação das ferramentas de Jebel Faya, surge uma voz dissonante entre os comentários entusiastas de vários especialistas. Paul Mellars, arqueólogo da Universidade de Cambridge, diz que, quanto a ele, apesar da descoberta das ferramentas ser importante e a datação bem feita, as conclusões estão erradas.

“Não há qualquer indício aqui que sugira que foram feitas por humanos modernos, nem de que eles vinham de África”, declara. E salienta que, ao contrário do que afirmam os autores da descoberta, não fica excluída de forma convincente a hipótese de se tratar de ferramentas fabricadas pelos Neandertais — ou até pelo "Homo erectus", antepassado dos humanos modernos que se sabe ter emigrado de África para Ásia há cerca de 1,8 milhões de anos.

Hans-Peter Uerpmann, um dos líderes da equipa que fez as escavações em Jebel Faya, concede que para “poder ter a certeza absoluta” de que as ferramentas foram fabricadas pelo Homo sapiens, vai ser preciso encontrar ossos fossilizados. Várias equipas de arqueólogos já declararam que tencionam lançar-se nessa procura.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O passo em falso de Stephen Jay Gould


Artigo põe em causa ensaio do célebre especialista em evolução norte-americano sobre como preconceitos afectam a ciência.

Stephen Jay Gould, o famoso cientista que se distinguiu tanto pelo estudo da evolução como pela sua defesa frente aos ataques da direita fundamentalista americana, terá sido vítima dos preconceitos que ele próprio denunciou num célebre artigo na Science e num ainda mais célebre ensaio, no livro A Falsa Medida do Homem (Quasi).

Tudo isto tem a ver com um cientista do século XIX, Samuel Morton, que reuniu uma colecção única de 1000 crânios, a inteligência e o racismo. E, claro, a integridade científica.

Gould, que morreu em 2002, questionou a integridade científica de Morton, acusando-o de ter, subtilmente - inconscientemente -, manipulado as medições que fez da capacidade craniana dos homens brancos para demonstrar que estes seriam os mais inteligentes. Isto para demonstrar que a raça branca - e o seu expoente, o homem branco - era a superior. A seguir vinham os asiáticos, os índios americanos e, no fim, os africanos.

Na altura em que Morton fez as suas experiências (a década de 1830, ainda antes da publicação de A Origem das Espécies por Charles Darwin, em 1859), quem era contra a abolição da escravatura defendia que a Humanidade não era una, mas antes que cada raça tinha sido criada em momentos distintos por Deus.

Mas um artigo publicado este mês na revista científica Public Library of Science - Biology (PLOS), acaba por pôr também em causa a integridade científica de Stephen Jay Gould - não preto no branco, mas é o que se pode aferir das conclusões dos cientistas que reconstituíram as experiências de Morton e chegaram à conclusão de que ele não terá manipulado, nem inconscientemente, as suas medições da capacidade craniana, feitas com sementes de mostarda, como dizia Gould.

E, pelo contrário, encontram indícios de que Gould é que terá sido vítima dos seus preconceitos - ou desejo de demonstrar como o racismo não tem bases científicas -, o que o levou a tratar os dados de uma forma discutível. Não o acusam de fraude no artigo, mas em entrevistas dadas a propósito do seu trabalho alguns membros da equipa têm cruzado essa linha vermelha.

Morton, um médico de Filadélfia, como bom cientista, tentou substituir a especulação por factos e medições, usando a sua colecção impressionante de crânios, representando todos os grupos raciais humanos. Mas, de acordo com a crítica de Gould - que foi ao mesmo tempo biólogo, paleontólogo, historiador das ciências, ensaísta e divulgador de ciência e pensador sobre a teoria da evolução -, o trabalho de Morton é exemplar para ilustrar como "artimanhas inconscientes ou mal percebidas são provavelmente endémicas na ciência, pois os cientistas são seres humanos enraizados em contextos culturais, não autómatos que se dirigem para verdades externas", escreveu na Science, em 1978.

Gould tornou-se uma figura pública com uma enorme projecção - uma espécie de Carl Sagan para a evolução, embora tivesse algumas ideias polémicas. Mas, em termos de grande público, tornou-se uma figura incontornável, nos Estados Unidos e não só. Dele esperava-se um juízo acertado.

Mas o que a equipa coordenada por Ralph Holloway diz é que Gould, que nunca foi ele próprio repetir as medições de Morton, apenas analisou as suas notas em papel, estava errado quando afirmou que Morton foi influenciado subconscientemente pelos seus preconceitos raciais (compactando as sementes de mostarda nos crânios dos homens brancos, para caberem mais). A equipa voltou a medir 308 dos 670 crânios estudados por Morton, guardados no Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia em Filadélfia, e não encontrou nenhum desvio estatístico significativo na direcção apontada por Gould. Na verdade, as únicas excepções foram sete crânios, e três deles até sobreestimavam a capacidade de três crânios egípcios. "Estes resultados tornam falsa a afirmação de que Morton mediu mal os crânios com base nos seus preconceitos", escreve a equipa na PLOS de 7 de Junho.Gould acusa ainda Morton de ter usado vários subterfúgios, como ter dividido os dados em subgrupos e ter amalgamado outras populações e não ter fornecido dados sobre isso. A equipa descobriu que Gould fez algo semelhante, relativamente aos crânios de nativos americanos: excluiu 34 de uma amostra de 144. Se forem usados os dados todos, com o método de cálculo usado por Gould, escreve a equipa, a média das dimensões cranianas da população de nativos americanos é ligeiramente menor do que usando o método de Morton.

"Estes elementos do trabalho de Gould são surpreendentes", disse ao jornal The New York Times Jason Lewis, da Universidade de Stanford (EUA), o principal autor do trabalho agora publicado. "Não consigo dizer se foram deliberados." No artigo, a equipa escreve: "Ironicamente, a própria análise do trabalho de Morton é provavelmente o melhor exemplo de como um preconceito influencia resultados."

Não é a primeira vez que o trabalho de Stephen Jay Gould sobre Morton é posto em causa. John S. Michael, um estudante universitário da Universidade da Pensilvânia, publicou um estudo em 1988, em que concluía que os resultados de Morton eram "razoavelmente precisos". A sua crítica não vingou: "Não é inteiramente evidente que se deva preferir as medições de um estudante às de um paleontólogo profissional", escreveu o filósofo da ciência Philip Kitcher, da Universidade de Colúmbia (Nova Iorque), recorda o New York Times.

Hoje, Philip Kitcher diz que Gould provavelmente se defenderia com brilho. "Ele não sai disto como um mau carácter, mas como alguém que comete erros." Ian Tattersall, conservador do Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, que conheceu Gould, também não duvida de que ele "teria uma resposta pronta". Mas sublinha que Stephen Jay Gould provou mesmo aquilo que queria demonstrar: que a ciência é susceptível a preconceitos inconscientes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Vamos clonar neandertais?

A publicação do primeiro esboço do genoma neandertal reacendeu o debate sobre a hipótese de clonar o nosso parente extinto. As enormes complexidades de carácter técnico, ético e jurídico do processo dividem os especialistas.

Se os neandertais voltassem a pisar a Terra, o barro primordial do qual surgiriam seria uma emulsão de óleo, água e ADN sintetizado no laboratório da empresa 454 Life Sciences (­www.454.com). Com efeito, nos últimos quatro anos, os funcionários da companhia biotecnológica sediada em Branford, no Connecticut, dedicaram-se a reunir material genético proveniente de diversos vestígios orgânicos, incluindo fragmentos de osso. A tarefa revelou-se fundamental para se poder delinear o primeiro esboço do genoma do Homo neanderthalensis, cujas conclusões foram publicadas, em Maio, na revista Science. Notícia explosiva: confirma-se que houve acasalamento entre o Homo sapiens e o seu antecessor mais próximo, como sustentaram João Zilhão e Erik Trinkhaus.

Embora a confirmação desse cruzamento pré-histórico tenha merecido uma posição de destaque nas primeiras páginas dos jornais, os cientistas estão interessados em ir mais longe; querem conhecer a fundo a biologia dos neandertais, em especial o que os distingue de nós. Ora a forma mais directa de obter informação seria clonar exemplares inteiros, como acontece com os dinossauros de Parque Jurássico. Seria possível em termos técnicos? E, no caso de conseguirmos, teríamos o direito de trazê-los de volta ao mundo? Como poderiam encaixar-se numa sociedade humana moderna?

Nas instalações da 454 Life Sciences, Gerald Irzyk, Jason Affourtit e Thomas Jarvie explicam-nos os busílis do seu trabalho. No começo, os estudos genéticos dos neandertais concentravam-se apenas nas mitocôndrias, organitos que transformam os nutrientes em energia no interior das células. Porém, em 2005, a 454 iniciou um projecto multidisciplinar em colaboração com o Instituto Max Planck de Leipzig, na Alemanha, que iria ampliar definitivamente o campo de acção dos cientistas. O objectivo é obter a sequência completa do material genético de uma fêmea morta, há 30 mil anos, numa caverna croata de Vindija.

A companhia do Connecticut desenvolveu um método para decifrar centenas de milhares de sequências de ADN em simultâneo. Segundo Jarvie, a tecnologia avança a uma velocidade comparável à potência de processamento dos computadores. “Há seis anos, descodificar o genoma da bactéria E. coli, que conta aproximadamente quatro milhões de pares de bases, teria custado entre um e dois milhões de dólares e exigido a dedicação de 150 pessoas durante um ano”, explica. “Agora, uma única pessoa consegue fazê-lo em dois dias por algumas centenas de dólares.”

Contudo, há um factor que aumenta a dificuldade da tarefa quando os investigadores têm de lidar com espécies já extintas: a degradação do material genético. Com efeito, poucas horas após a morte, as células começam a decompor-se, num processo denominado “apoptose”, e a libertar enzimas que dividem o ADN em diminutos fragmentos. Depois, o ácido desoxirribonucleico sofre alterações químicas que podem induzir interpretações incorrectas da sequência genética. No caso da amostra neandertal, entre 90 e 99 por cento do ADN provém de bactérias e outros elementos alheios que penetraram nos restos ósseos à medida que estes iam ficando soterrados. Devido à semelhança entre o genoma neandertal e o dos humanos modernos, o problema poderá revelar-se especialmente grave se a contaminação for proveniente de pessoas que escavaram ou analisaram o osso.

Clonar um neandertal será ainda mais trabalhoso do que reconstituir o seu genoma. A tecnologia de que dispomos permite reproduzir artificialmente uma cópia exacta da sequência de ADN de forma rápida e barata, mas um filamento de ácido desoxirribonucleico a flutuar livremente não tem muito valor para dar vida a uma célula. “Como empacotar os genes em cromossomas para os introduzir num núcleo? Não sabemos fazê-lo”, admite James Noonan, geneticista da Universidade de Yale.

A forma adoptada pelo ADN dentro dos cromossomas condiciona o modo como os genes interagem com os compostos químicos do interior da célula. Como essas interacções controlam a produção de proteínas, os tijolos do organismo, a expressão do genoma é tão importante como o próprio ADN. Segundo Carles Lalueza-Fox, paleogeneticista da Universidade de Barcelona, os danos celulares que ocorrem após a morte impedem-nos de conhecer como se produz exactamente o complexo processo bioquímico. Obter um clone idêntico de alguém que viveu há 30 mil anos seria, deste ponto de vista, uma impossibilidade.

Outra forma de abordar o problema consistiria em alterar o ADN de uma célula viva, um tipo de bioengenharia que já é exequível, embora apenas se possa efectuar poucas modificações. George Church, professor da Escola de Medicina de Harvard (Estados Unidos), faz parte de uma equipa de investigação que pretende produzir centenas de alterações através de uma técnica denominada “engenharia genómica automatizada em multiplex” (MAGE, na sigla inglesa). Os especialistas de Harvard utilizam fibras de ADN muito curtas, denominadas “oligonucleótidos”, para inserir material genético em locais específicos. O MAGE já permitiu produzir 24 alterações nos genomas de bactérias, ratos e células humanas. Trata-se de um primeiro passo encorajador, mais ainda bastante tímido: Church estima que seriam necessárias cerca de dez milhões de modificações para conseguir que um genoma humano moderno coincidisse com o do homem do Nean­dertal.

O investigador considera que a clonagem deveria partir de um nível básico; as células de órgãos como o fígado, o pâncreas ou o cérebro. “Não se deduz nada se nos limitarmos, simplesmente, a observar a sequência genética. É difícil prever os caracteres físicos; é preciso comprová-los em células vivas”, explica. A investigação médica poderia beneficiar do feito: se os neandertais fossem suficientemente diferentes da nossa espécie, as suas células seriam geneticamente imunes a doenças humanas como a sida ou a poliomielite. As diferenças biológicas também poderiam contribuir para o desenvolvimento de novos fármacos ou tratamentos genéticos.

Até agora, os esforços para ressuscitar espécies extintas através da clonagem têm tido resultados frustrantes. A 6 de Janeiro de 2000, uma violenta tempestade no Parque Nacional de Ordesa, em Espanha, derrubou o ramo de uma árvore que pôs fim à vida de Celia. Tratava-se do último exemplar de Capra pyrenaica pyrenaica, uma subespécie de cabra montês. Em 2003, uma equipa de investigadores tentou ressuscitar a estirpe de Celia a partir de uma amostra de tecido proveniente da orelha do animal, congelada quando ele ainda estava vivo. Conseguiram, dessa forma, implantar 57 embriões da subespécie no útero de várias cabras montesas: 52 não sobreviveram ao período de gestação, quatro nasceram mortos e a única cria sobrevivente morreu dez minutos depois de ter nascido, devido a uma deficiência pulmonar. A fim de criar os clones de Celia, os cientistas espanhóis ugtilizaram métodos desenvolvidos pela Advanced Cell Technology (ACT), uma companhia biotecnológica com sede em Worcester, no Massachusetts. A técnica, denominada “transferência nuclear”, consiste em extrair o núcleo de uma célula proveniente de uma espécie com a qual possui um estreito parentesco e substituí-lo por outro com o ADN clonado. No caso da cabra montesa, foram utilizados óvulos de cabra doméstica. De acordo com Robert Lanza, director científico da ACT, já foram efectuadas clonagens de gado bovino, ovino e caprino de forma rotineira com recurso a esta técnica.

No entanto, as espécies que não são habitualmente “fotocopiadas” têm de enfrentar sérios riscos, pois o processo de transferência nuclear provoca, frequentemente, a morte da célula. É por isso que praticamente toda a comunidade científica se opõe a qualquer experiência com a nossa própria espécie. Mesmo que se conseguisse aperfeiçoar o método, iria exigir, provavelmente, um terrível período de tentativa e erro.

Porém, existe outra opção: fabricar células estaminais com o ADN dos neandertais. Nos últimos anos, os geneticistas aprenderam a obter células da pele para fazê-las regressar ao denominado “estado pluripotencial”, no qual podem integrar qualquer elemento do corpo humano. George Church sugere utilizar a técnica MAGE para alterar o ADN de uma das stem cells, de modo a fazê-la coincidir com o genoma neandertal. Dessa forma, seria possível cultivar colónias de células do coração, do cérebro ou do fígado, órgãos e, em última instância, organismos inteiros. O processo para ressuscitar um ser do passado consistiria, fundamentalmente, em implantar a célula estaminal com o ADN neandertal num blastocisto (fase inicial do embrião) humano. Church considera que, após as primeiras etapas de desenvolvimento, os genes se exprimiriam tal como o fariam no indivíduo primordial, eliminando qualquer influência do Homo sapiens.

Até agora, a técnica foi apenas experimentada em ratos, mas Church pensa que poderia funcionar em hominídeos. Contudo, adverte que esta clonagem nunca poderia abranger os factores culturais e ambientais que influenciavam o crescimento dos verdadeiros neandertais. “Seriam neo-neandertais”, define.

O Homo neanderthalensis separou-se da linhagem dos seres humanos modernos há cerca de 450 mil anos. Desenvolveu um cérebro maior e uma estatura inferior à do seu presumível antecessor, o Homo heildelbergensis. Criou igualmente uma grande variedade de ferramentas de pedra, assim como técnicas mais eficientes para fabricá-las. Possuíam, em média, encefálos 100 centímetros cúbicos maiores do que os dos actuais humanos, o que poderá ser explicado pela diferença na constituição física. Exibiam crânios largos e achatados, uma testa mais baixa do que a nossa e um rosto sem queixo.

Por outro lado, os ossos grossos e fortes costumam exibir marcas de fracturas, pois as técnicas cinegéticas que utilizavam obrigavam-nos a aproximar-se demasiado das grandes presas, como é o caso dos bisontes ou dos mamutes. Possuíam grandes caixas torácicas em forma de barril e narizes proeminentes, características que talvez os ajudassem a respirar quando caçavam a temperaturas muito baixas, segundo conjecturam alguns paleoantropólogos.

Estudos recentes proporcionaram perspectivas surpreendentes. “Não são simplesmente uma espécie de esquimós pitorescos que viveram há 60 mil anos”, diz Jean-Jacques Hublin, paleoantropólogo do Instituto Max Planck. “Tinham outra maneira de dar à luz e diferenças fisiológicas, na forma do ouvido interno ou na idade de desmame e da puberdade.” Um estudo demonstrou que os neandertais tinham uma infância abreviada: alguns estudiosos pensam que atingiam a maturidade física aos 15 anos.

Seja como for, há quem ache que eles não eram suficientemente estranhos para se poder considerar que pertenciam a outra espécie. “Actualmente, há seres humanos que apresentam fenótipos [conjuntos de características físicas] ainda mais distintos entre si”, argumenta John Hawks, paleoantropólogo da Universidade do Wisconsin. Hawks estudou o ADN de populações modernas para com­preen­der a taxa de alteração evolutiva no Homo sapiens. Muitas das diferenças dever-se-iam a transformações genéticas que a nossa estirpe teria sofrido a partir da extinção dos neandertais, há 30 mil anos.

“Desde então, contabilizámos entre 2500 e 3000 acontecimentos que desencadearam modificações favoráveis no genoma humano”, recorda Hawks. Somos tão diferentes dos povos neolíticos que viveram há dez mil anos como estes o teriam sido dos neandertais. Em concreto, os clones de Homo neanderthalensis manifestariam intolerância à lactose, dificuldade em metabolizar o álcool, propensão para desenvolver a doença de Alzheimer e ausência de imunidade a outras infecções. Mais importante do que tudo, é o facto de contarem com cérebros distintos do do homem moderno.

Todavia, não convém subestimar aquelas mentes, capazes de impressionantes inovações culturais. Já enterravam os mortos há 110 mil anos, o que significa que o seu sistema social exigia a inumação formal dos falecidos. Além disso, há cerca de 40 mil anos, adoptaram novas técnicas para fabricar ferramentas: a tradição uluzziense, em Itália, e a chatelperronense em toda a Europa Ocidental. Nesse caso, se eram tão versáteis como o Homo sapiens, por que motivo se extinguiram? Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres, considera que a nossa espécie caçava e recolhia alimentos de forma tão intensiva que já não havia, simplesmente, espaço para os ­neandertais procurarem sustento. Por outras palavras, foram expulsos do seu nicho ecológico, tal como está a acontecer com muitos animais nos nossos dias.

Bernard Rollin, professor de filosofia na Universidade do Estado do Colorado, não pensa que a criação de um clone neandertal venha colocar um conflito ético por si só. O problema reside na forma como esse indivíduo seria tratado. “Não seria adequado colocar alguém numa situação em que possa sentir-se ridículo e, provavelmente, provocar-lhe medo”, afirma. “Devemos também considerar que não se poderá relacionar com pessoas como ele. E isso, dado que os seres humanos são seres sociais, seria extremamente injusto.” Stringer é da mesma opinião: “Iríamos colocá-lo num mundo a que não pertence.” Quando os nean­der­tais desapareceram, ainda não existiam cidades. No seu apogeu demográfico, talvez atingissem os dez mil indivíduos, dispersos por toda a Europa. O nosso clone talvez não possuísse as adaptações biológicas necessárias, quaisquer que elas sejam, para poder enfrentar uma maior densidade populacional.

Todavia, nem todos consideram que seriam diferentes ao ponto de serem automaticamente marginalizados: “Estou convencido de que um neandertal, se fosse criado no seio de uma família humana moderna, se comportaria como qualquer pessoa”, afirma Trenton Holliday, paleoantropólogo da Universidade de Tulane, em Nova Orleães. “Poderia falar e fazer tudo o que fazemos.”

“Acho que não se hesitaria em atribuir a esse indivíduo os direitos humanos consagrados nas constituições e nos tratados internacionais”, afirma Lori Andrews, professora da Faculdade de Direito Chicago-Kent. Não existe uma definição jurídica sobre o que é uma pessoa, embora haja discussões entre os académicos sobre situações que envolvem engenharia genética. “Este seria um caso de modificação de uma espécie. Iria mudar, por conseguinte, a forma como surge uma nova geração”, reflecte Andrews. Até que ponto se teria de alterar o nosso genoma para que um indivíduo criado a partir dele deixasse de ser considerado humano?

Nos Estados Unidos, a jurisprudência parece estar do lado dos direitos dos neandertais. Em 1997, Stuart Newman, professor de biologia da Escola de Medicina de Nova Iorque, procurou obter uma patente para o genoma de um híbrido de chimpanzé e ser humano com o objectivo de evitar que alguém se lembrasse de criar semelhante ser. Todavia, o departamento de patentes rejeitou o pedido, argumentando que violaria a 13.ª emenda da Constituição norte-americana, que proibe a escravatura: a decisão implica que a criatura seria protegida pelos direitos humanos, tal como aconteceria, com maior razão ainda, no caso de um neandertal.

Lori Andrews chega a uma simples conclusão: “Se beneficiasse de protecção jurídica, poderia invocar o direito de não querer ser alvo de investigação, pelo que o próprio motivo para a sua criação se tornaria uma privação dos respectivos direitos.” Isso para não falar da própria legitimidade da clonagem humana (teoricamente proibida em alguns países e autorizada noutros), ou na delicada questão das patentes comerciais dos genes.

Seja como for, a oportunidade de observar um neandertal vivo parece, à partida, demasiado sedutora para ser ignorada. A questão é saber se o que aprenderíamos, para além de satisfazer a nossa curiosidade, seria mais importante do que o nosso sentido de compaixão. Haveria suficientes vantagens científicas para correr todos os riscos? “Claro que gostaria de ter um neandertal clonado diante dos olhos, mas entre o meu desejo de vê-lo e a escassa informação que obteríamos, não creio que valesse a pena”, opina o paleoantropólogo Trenton Holliday. Outro colega, Jean-Jacques Hublin, é ainda mais duro: “Não somos doutores Frankenstein que manipulam genes humanos apenas para ver como funcionam.” O geneticista James Noonan está de acordo: “Se a experiência se revelar um êxito e conseguir criar um neandertal que fale, violou-se todas as normas éticas. No caso de fracassar... perde-se em qualquer dos casos.”

Outros especialistas argumentam que podem existir circunstâncias que justifiquem a clonagem. “Se pudéssemos, realmente, consegui-lo e soubéssemos que estávamos a fazê-lo bem, então sou a favor”, indica Bruce Lahn, geneticista da Universidade de Chicago. “De qualquer modo, não pretendo minimizar o problema do indivíduo viver num meio onde talvez não se consiga encaixar. Se também pudéssemos proporcionar-lhe um habitat e ressuscitar um punhado de companheiros, as coisas seriam diferentes.”

“Podemos aprender muito mais com um nean­dertal adulto vivo do que através de culturas celulares”, diz Church. “No entanto, seria necessário estipular acordos para estabelecer um lugar ele pudesse viver como quisesse”, acrescenta. O clone também deveria poder contar com um grupo social, o que implica criar congéneres, uma colónia inteira. Na opinião de Church, estudar esses neandertais, com o seu consentimento, abriria a possibilidade de curar doenças e salvar vidas. Além disso, os cérebros conformados de forma distinta poderiam proporcionar diferentes perspectivas para a resolução de um problema. É também possível que expandissem a diversidade genética humana, contribuindo para proteger o nosso género de uma futura extinção. “Dizer simplesmente não, não fazer nada, é uma decisão muito arriscada”, resume.

John Hawks acha que vão cair as barreiras que impedem a clonagem do nosso parente. “Temos a intenção de ressuscitar o mamute. A oposição a fazermos o mesmo com um neandertal também irá dissipar-se com o tempo.” Não considera que seja um comportamento científico ético, mas recorda que há sempre pessoas dispostas a infringir as normas. “Ainda vamos ver um neandertal clonado; estou convencido disso”, vaticina.


Pálidos e ruivos
Há 49 mil anos, foram assassinados onze neandertais nas Astúrias (Espanha). A superfície dos ossos mostrava cortes, indício de que tinham sido descarnados com utensílios de pedra. A cerca de 200 metros, no interior da caverna de El Sidron, uma equipa de investigadores que incluía Carles Lalueza-Fox, da Universidade de Barcelona, recuperou 1700 restos ósseos do festim canibal. Grande parte do que se conhece da genética neandertal provém desses vestígios.

Lalueza-Fox não pensa sequenciar o genoma inteiro dos indivíduos encontrados em El Sidrón. “Apenas escolho os genes que estejam, de algum modo, relacionados com a personalidade”, explica. Até agora, o seu trabalho mostrou que possuem uma variante única do gene responsável pela pele pálida e pelo cabelo avermelhado. Neste aspecto, eram diferentes dos seres humanos.

O paleogeneticista analisou também os grupos sanguíneos de dois neandertais e descobriu que eram ambos de tipo O. Verificou, igualmente, que partilham com a nossa espécie uma variante do gene FOXP2, relacionada com a capacidade de aquisição de linguagem. Isso sugere que os chacinados de EL Sidron falavam, provavelmente, a sua própria língua.



A voz dos genes
Os genomas humano e neandertal são idênticos em 99,84%. Exemplos dos poucos genes que nos distinguem.

RPTN. Fabrica a proteína repetina (pele, glândulas sudoríferas, raiz do cabelo e papilas gustativas).

TRPMI. Relacionado com a melastatina, que intervém na pigmentação da pele.

SPAG17. Relacionado com o movimento dos espermatozóides.

THADA. Diabetes de tipo 2.

DYRK1A. Síndroma de Down.

AUTS2. Desenvolvimento neuronal (relacionado com o autismo?).

ACCN1 e CADP2. Autismo?

NRG3. Esquizofrenia?

RUNX2 (CBFA1). Displasia cleidocraniana (malformações no crânio, na caixa torácica, nas clavículas e na dentição).



Mestiçagens no Paleolítico

Quando o Homo sapiens começou a abandonar África, há 80 mil a 50 mil anos, a nossa espécie manteve contacto carnal e procriou, durante um breve período, com o Homo neanderthalensis. É esta a conclusão mais interessante do primeiro esboço do genoma neandertal, elaborado por uma equipa internacional de investigadores sob a direcção do biólogo sueco Svante Pääbo. A hibridação, finalmente comprovada após anos de controvérsia que teve o seu epicentro no “menino do Lapedo”, o esqueleto descoberto perto de Leiria, teve como consequência o facto de entre um e quatro por cento dos genes dos humanos modernos serem provenientes do hominídeo extinto.

O intercâmbio terá provavelmente ocorrido no Médio Oriente, antes de a humanidade se dispersar pela Europa e pela Ásia. A hipótese baseia-se no facto de o genoma dos actuais africanos não conter vestígios do cruzamento. De acordo com Pääbo, “poderemos, pela primeira vez, identificar características genéticas que nos diferenciam dos restantes organismos, incluindo os nossos parentes evolutivos mais próximos”. A sequenciação, que já inclui 60% do ADN neandertal, tem sido comparada com os genomas de um chimpanzé e de cinco pessoas provenientes de África, China, França e Papuásia-Nova Guiné.

SuperInteressante 
Z.Z.

sábado, 22 de agosto de 2015

Homem do Gelo tinha olhos castanhos, tez branca e intolerância à lactose

A múmia mais completa de sempre, encontrada em 1991, nos Alpes italianos, continua a ser uma fonte de informação. Agora foram reveladas as conclusões da análise genética do seu ADN. Ötzi teria olhos castanhos e pele branca, era intolerante à lactose e tinha disposição genética para ter problemas cardíacos, revela o estudo publicado nesta terça-feira na revista Nature Communications.

A história deste representante do neolítico, que morreu há 5300 anos, por motivos mais ou menos misteriosos, mas que envolveram certamente uma seta que carrega no ombro esquerdo e um corte na mão direita, é rica em detalhes conhecidos nos últimos 20 anos.

Em 1991, um casal de alpinistas alemão encontrou no Vale Ötzal, a 3120 metros de altitude, um corpo mumificado, que há milénios o frio, o gelo e a escuridão protegeram da deterioração. O Homem do Gelo foi encontrado e descrito.

Como múmia, Ötzi é mais completo do que os faraós egípcios, pois continua a ter todos os órgãos, que nos faraós foram retirados. Tinha 1,59 metros, pesava em vida 50 quilos e quando morreu teria cerca de 46 anos. Vestia couro de cabra e tinha se alimentado, recentemente, de carne de veado e cabra.

O cabelo era rico em arsénio e cobre, o que poderá indicar que trabalhava com a fundição de cobre. Com ele viviam uma série de parasitas: piolhos do cabelo, piolhos do corpo, lombrigas. Sofria de artrose. Tratava-se para algumas destas maleitas e, para um homem do neolítico, viveu bastante.

Já a causa da sua morte é mais especulativa. Primeiro julgou-se que tinha sido apanhado numa tempestade de neve. Depois descobriu-se que tinha uma seta enfiada no ombro esquerdo que o terá ferido mortalmente e uma outra ferida profunda na mão direita. Os cortes tê-lo-ão feito perder sangue durante horas, em sofrimento, até morrer e indicam ter havido uma luta. Mas com quem e em que contexto, não se sabe.

Os novos dados caracterizam a genética e fisiologia deste antepassado. A equipa liderada por Albert Zink, do Instituto de Múmias e do Homem do Gelo, ligado ao Museu Arqueológico de Bolzano, na Itália, onde está a múmia, analisou o ADN celular pela primeira vez.

Até agora, só se tinha sequenciado o ADN das mitocôndrias, as baterias das células. Desta vez, com a ajuda de uma nova tecnologia, sequenciou-se o ADN dos cromossomas de Ötzi.

Os resultados mostram que o Homem do Gelo tinha “provavelmente olhos castanhos, pertencia ao grupo sanguíneo O e era intolerante à lactose [o açúcar do leite]”, revela o artigo. Além disso, tinha pele branca e tendência genética para aterosclerose coronária.

“Andámos a estudar o Homem do Gelo durante 20 anos. Sabemos tantas coisas sobre ele – onde viveu e como morreu – mas sabíamos muito pouco sobre a sua genética e a informação genética que carregava consigo”, disse Zink à BBC News. A equipa também encontrou informação genética da bactéria que causa a doença de Lyme, que é transmitida pela carraça. É a indicação mais antiga desta doença.

Mas esta nova análise de Ötzi também serviu para comparar a sua assinatura genética com as populações humanas que existem hoje na Europa. Os resultados foram surpreendentes. A população geneticamente mais próxima do Homem do Gelo vive hoje na ilha da Sardenha, no Mediterrâneo.

Uma das hipóteses é a população na Sardenha “representar uma relíquia da população genética que existia na Itália durante a pré-história, mas que agora está transformada devido fenómenos de migrações e mistura genética posteriores”, sugeriu Peter Underhill, citado num blogue da Scientific American. O investigador da Universidade de Stanford, na Califórnia, fez parte da extensa equipa de investigadores.

A análise da sequência genética vai continuar. “Gostaríamos de aprender mais com estes dados – estamos apenas no início da sua análise”, disse Zink. Ficamos à espera dos próximos capítulos sobre a história de Ötzi.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Neandertais poderiam já estar perto da extinção quando nos encontraram

Os estudos de ADN têm uma tendência para revolver a história da evolução humana, desta vez uma nova investigação sugere que quando os nossos antepassados contactaram com os Neandertais, há menos de 50.000 anos, estes já eram sobreviventes de um fenómeno que tinha ceifado quase totalmente a espécie, conclui um artigo publicado na revista Molecular Biology and Evolution.

A equipa internacional, que inclui investigadores do Centro de Evolução e Comportamento Humano da Universidade Complutense de Madrid, analisou o ADN extraído do osso de 13 Neandertais. Os indivíduos viveram entre os 100.000 e os 35.000 anos, e foram encontrados em sítios arqueológicos que se estendem desde a Espanha até à Ásia.

Os cientistas analisaram a variabilidade do ADN mitocondrial, que existe dentro das mitocôndrias, as baterias das células que são sempre herdadas da mãe para os filhos. A partir desta análise, verificaram que havia muito mais variabilidade entre os Neandertais que viveram há mais de 50.000 anos, do que os indivíduos que viveram durante os 10.000 anos depois, pouco antes de se terem extinguido.

Os indivíduos com menos de 50.000 anos tinham uma variabilidade genética seis vezes menor do que os mais antigos. Isto evidencia um fenómeno que provocou a morte de um grande número de pessoas desta espécie. Depois disto, sucedeu-se uma re-colonização da Europa a partir de populações de Neandertais vindas de Ásia.

“O facto de os Neandertais terem estado quase extintos na Europa, e depois terem recuperado, e tudo isso ter acontecido antes de entrarem em contacto com os humanos modernos, é uma surpresa total”, disse Love Dalen, o primeiro autor do artigo, que pertence ao centro de investigação de Madrid e ao Museu de História Natural de Estocolmo, Suécia. “Isto indica que os Neandertais poderiam ser mais sensíveis a mudanças climáticas dramáticas que ocorreram durante a última Idade do Gelo, do que se pensava anteriormente”, disse, citado pela BBC News.

Segundo o artigo, a variabilidade do genoma dos Neandertais antes do tal fenómeno que ocorreu há 50.000 anos era equivalente à variabilidade da espécie humana. Depois do fenómeno, essa variabilidade passou a ser menor do que a que existe hoje entre a população da Islândia.

Este fenómeno poderá estar ligado às alterações climáticas. Pensa-se que há cerca de 50.000 anos alterações nas correntes oceânicas do Atlântico causaram uma série de temporadas geladas que alteraram inclusive a cobertura vegetal da Europa.

O que quer que tenha acontecido depois, quando os humanos modernos foram migrando pela Europa, continua a ser uma incógnita. Mas estes dados sugerem que as populações de Neandertais que os nossos antepassados encontraram seriam muito mais homogéneas a nível genético e por isso muito mais vulneráveis a alterações no ambiente.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Calor fez diminuir tamanho de cavalos há 56 milhões de anos

Há mais de 50 milhões de anos, a Terra era um local mais quente do que hoje e cavalos do tamanho de gatos corriam nas florestas da América do Norte, descobriram cientistas dos Estados Unidos, que publicaram nesta quinta-feira um artigo na Science.

Estes cavalos primitivos, conhecidos como Sifrihippys, encolheram de tamanho ao longo de dezenas de milhares de anos para se adaptarem às temperaturas mais altas durante um período em que as emissões de metano atingiram um pico, provavelmente devido a uma série de erupções vulcânicas.

A investigação pode dar indicações de como é que os animais que vivem hoje no planeta vão adaptar-se ao aquecimento provocado pelas alterações climáticas de causa humana, defendem os cientistas.

Os investigadores fizeram esta descoberta depois de analisarem fósseis de dentes de cavalos descobertos no estado de Wyoming, EUA. Os fósseis mostraram que os espécimes mais antigos tinham dentes maiores, o que significa que a espécie diminuiu ao longo do tempo.

Muito animais acabaram por se extinguir durante um período de 175.000 anos conhecido pelo Máximo Térmico do Paleoceo – Eoceno, há cerca de 56 milhões de anos. Outros animais ficaram mais pequenos para sobreviverem num mundo com menos alimento.

“Por ser um período de tempo suficientemente longo, há um argumento forte de que estamos a olhar para a selecção natural e para a evolução – isso corresponde à mudança de temperatura como força motriz da evolução destes cavalos”, disse o co-autor Jonathan Bloch, do Museu de História Natural da Florida.

As temperaturas médias do globo subiram cerca de 5,7 graus célsius durante o período de tempo em que quantidades enormes de carbono entraram na atmosfera e nos oceanos. A superfície do mar do Árctico seria de cerca de 23 graus célsius, uma temperatura semelhante às águas subtropicais de hoje.

A investigação mostrou que o Sifrhippus diminui quase para um terço do tamanho original, alcançando o tamanho de um pequeno gato de quatro quilos nos primeiros 130.000 anos deste período. Depois, ao fim de um período de 45.000 anos, os cavalos foram aumentando de tamanho até aos sete quilos.

Durante este período, cerca de um terço dos mamíferos conhecidos também ficaram mais pequenos, alguns reduziram para metade do tamanho.

“Isto tem implicações para o que poderemos esperar que aconteça nos próximos dois séculos, pelo menos a partir de alguns modelos climáticos que prevêem um aumento de até 4 graus célsius na temperatura ao longo dos próximos 100 a 200 anos”, disse Ross Secord, outro autor do estudo, da Universidade de Nebrasca.

Já foi observada uma diminuição do tamanho de alguns pássaros quando são comparados com as versões que existiam no passado, quando o clima era mais frio, argumenta o cientista.

No entanto, estima-se que as previsões das mudanças do clima ocorram já nos próximos dois séculos. Este máximo térmico que aconteceu há 56 milhões de anos ocorreu muito mais gradualmente, demorando entre 10.000 e 20.000 anos para a temperatura subir os seis graus.

“Por isso há uma grande diferença na escala e a questão é: ‘Vamos ver o mesmo tipo de resposta?’ Será que os animais são capazes de responder às mudanças e reajustarem o tamanho dos seus corpos durante o próximo par de séculos?”, questionou o cientista.

sábado, 15 de agosto de 2015

Genoma do polvo revelado na ponta dos seus oito tentáculos, ou dos “pés”


Os segredos genéticos de uma das maravilhas subaquáticas da Terra foram revelados: o polvo — animal cujo cérebro o coloca entre os invertebrados mais inteligentes e ao qual os oito tentáculos cravejados de ventosas dão uma aparência sobrenatural.

O estudo que desvenda o genoma completo de um polvo teve a liderança do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (OIST, na sigla em inglês), no Japão, e nele participaram ainda as universidades de Chicago e da Califórnia, nos Estados Unidos.

É a primeira vez que se sequencia uma espécie cefalópode, a classe de moluscos à qual pertence o polvo e que inclui ainda as lulas, os chocos e os náutilos. Com três corações e cerca de 500 milhões de neurónios distribuídos pelos oito tentáculos, este animal pode assumir comportamentos tão estranhos como contrair os seus músculos para formar estruturas semelhantes a cotovelos e ombros, ou decorar a toca onde vive com o que sobrou das suas presas.

“Os polvos e outros cefalópodes são realmente criaturas extraordinárias”, disse à Reuters Caroline Albertin, estudante de biologia na Universidade de Chicago, que colaborou no estudo publicado na revista Nature.

“Num piscar de olhos, podem camuflar-se através da mudança de cor e de textura da pele. Os oito braços preênseis cheios de ventosas podem ser usados para agarrar, manipular e até degustar objectos; características tão complexas quanto as de terem olhos que funcionam como câmaras, e cérebros grandes que os tornam em activos predadores com comportamentos complexos.”

Mas por que é este animal tão diferente dos outros da sua classe? Para tentar compreender este mistério evolutivo, os cientistas sequenciaram o genoma do Octopus bimaculoides, uma espécie relativamente pequena, castanho-acinzentada, com duas manchas azuis iridescentes em cada um dos lados da cabeça, e que habita junto à costa Sul da Califórnia.

O grande incentivo foi tentar perceber a singularidade do sistema nervoso do animal, cujo cérebro está organizado de forma completamente diferente da dos vertebrados, e os genes por detrás dessa característica. “Foram os primeiros seres inteligentes do planeta”, disse Sydney Brenner, prémio Nobel da Medicina em 2002 e presidente do OIST, citado num comunicado desta instituição.

Próximo do tamanho do genoma humano (que tem 23 pares de cromossomas com cerca de 27 mil genes), o genoma do polvo é o maior dos invertebrados já sequenciados, como moscas, caracóis e ostras. Entre os 33 mil genes deste animal, há alguns que não se encontraram em mais nenhuma outra espécie: são cerca de 3500 genes que estão activos no cérebro, nas ventosas, na retina e permitem ainda a camuflagem.

Com uma organização diferente do de outros invertebrados, o genoma do polvo teve, no seu percurso evolutivo, uma grande expansão dos genes que regulam o desenvolvimento das células nervosas — fenómeno que antes se pensava estar associado à duplicação do genoma, como aconteceu com alguns vertebrados durante a evolução, incluindo o homem. Mas os resultados deste estudo contrariam esta hipótese e levantam diferentes hipóteses para a expansão e reorganização genómica do polvo.

Carnívoros que capturam por vezes usando veneno, o método comum para os polvos caçarem é através de um bico duro com o qual rasgam a presa. Tal como a mitológica Hidra, estes animais podem também regenerar os seus oito membros e largar ainda uma tinta escura para confundir os predadores. Se olharmos para a raiz grega do nome do animal — okto-pous —, verificamos que a designação dos tentáculos, ou braços, indica na verdade que tem oito pés.

Dois dos seus três corações são branquiais, têm a função de bombear o sangue para as guelras, enquanto o terceiro actua na circulação sistémica, fazendo o sangue chegar até aos órgãos. Quando o polvo está a nadar, o coração principal (o sistémico) pára de bater, fazendo com que o animal se canse rapidamente e prefira assim rastejar para se deslocar.

Já o sangue deste animal é verdadeiramente azul. Mas desengane-se quem associe a característica a uma distinta linhagem real. O motivo é simples e desprovido de elaborações metafóricas: em vez de ferro, o sangue dos polvos é rico em cobre que, em condições subaquáticas de grandes profundidades, permite um melhor transporte do oxigénio. É a presença deste elemento que dá ao sangue do polvo a cor azulada.

A linhagem dos cefalópodes começou a formar-se há 500 milhões de anos. Os primeiros polvos apareceram há cerca de 270 milhões de anos, e hoje existem cerca de 300 espécies.

“Podemos agora explorar os mecanismos moleculares do desenvolvimento do polvo, os seus comportamentos complexos, e ter uma melhor compreensão da trajectória evolutiva que levou aos polvos de hoje”, referiu Yan Wang, estudante de neurobiologia da Universidade de Chicago que participou no estudo, também citado pela Reuters. Daniel Rokhsar, professor na Universidade da Califórnia, revela que investigação genómica está a ser desenvolvida noutros cefalópodes, como a lula-gigante.

Um outro objectivo é também perceber a que função do sistema nervoso está associado cada gene. Irá aproveitar-se o facto de alguns genes já estarem activos no embrião do polvo e, por isso, ser mais fácil interferir com eles. “Precisamos de ser capazes de criar animais em laboratório e ter uma melhor ideia do que é o seu comportamento normal, para reconhecermos o que muda quando um gene é eliminado”, afirmou Daniel Rokhsar, no comunicado do OIST.

“Alienígena” foi como lhe chamou o zoólogo britânico Martin Wells (1928-2009) pela estranheza das suas características e diferenças do polvo em relação a outros animais da mesma classe. Clifton Ragsdale, da Universidade de Chicago também autor do estudo, corrobora esta classificação: “Podemos dizer que o nosso artigo descreve o primeiro genoma sequenciado de um alienígena.”

Texto retirado daqui
Texto editado por Teresa Firmino

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Evolução Culminou no Homem?



A bióloga e professora universitária Teresa Avelar acaba de publicar, na Bertrand Editora, um novo livro, A Evolução Culminou no Homem?, subtitulado Progresso, Contingências, Catástrofes e Extraterrestres. Trazemos-lhe a introdução e o primeiro capítulo, para aguçar a curiosidade.

A noção de progresso, no sentido de uma mudança direccional conduzindo a um estado que se assume ser “melhor”, influencia profundamente o pensamento contemporâneo, a ponto de se pensar frequentemente que não só existe progresso cultural e tecnológico como progresso ao nível biológico: ou seja, que a evolução tem levado os seres vivos a “progredir” ao longo do tempo. Esse progresso culmina em nós, seres humanos, que somos “evidentemente” a espécie mais “evoluída” que existe. Expressões como “animais inferiores e superiores” (os “superiores” são aqueles que são mais parecidos connosco), espécies mais ou menos “evoluídas”, linhagens “progressivas e degeneradas” são outros indicadores da crença em progresso evolutivo culminando nos humanos. Melhores do que nós só eventuais inteligências extraterrestres (visto que outros tipos de seres “superiores”, como anjos ou deuses, já não são do domínio científico). Quantas vezes vimos a nossa evolução representada como uma série de macacos cada vez mais “evoluí­dos” e verticais, até vermos um homem (é praticamente sempre um indivíduo do sexo masculino) a caminhar, de modo quase heróico, em direcção ao futuro?

De facto, é difícil ter uma ideia mais errada do que esta relativamente ao processo evolutivo. Mas a crença na existência objectiva de progresso ao nível dos fenómenos e processos biológicos é extraordinariamente persistente. Parece-nos chocante que, no século XXI, uma noção tão subjectiva e antropocêntrica não só continue a ter aceitação geral por parte de leigos, como até seja defendida por alguns cientistas. A convicção de que há progresso biológico, e que é praticamente inevitável que a evolução conduza a seres semelhantes a nós, é ilustrada pelo pressuposto de que, se ocorrer vida extraterrestre, haverá necessariamente, algures, inteligência extraterrestre, como se uma coisa implicasse automaticamente a outra. É essa ideia de progresso inevitável, “garantido” pelos processos biológicos, que vamos discutir neste livro.


O conceito de progresso em geral é relativamente recente, uma vez que só é possível quando se admite que o mundo mudou ao longo do tempo. Os Gregos raramente consideraram essa ideia, visto que, em geral, imaginavam o mundo como sendo estático. Em relação aos seres humanos, uma ideia frequente era a de uma queda e regressão após uma “Idade do Ouro” ou uma idade heróica – por exemplo, na Ilíada, o velho Nestor contrasta o presente com a sua juventude, quando os homens eram “maiores” em todos os aspectos, e em geral Homero fala dos seus heróis como sendo “superiores” às pessoas a quem estava a contar a história. No entanto, mais tarde, vários pensadores gregos admitiram que os humanos haviam progredido: por exemplo, o autor da peça Prometeu Agrilhoado descreve o progresso cultural dos humanos desde um estado inicial miserável. Certos filósofos pré-socráticos como Protágoras e, mais tarde, o romano Lucrécio, inspirado pelo filósofo grego Epicuro (cujas obras em grande parte se perderam), referem-se ao progresso humano desde a “barbárie” até à civilização.

O cristianismo foi inicialmente ambivalente em relação ao progresso. Por um lado, baseia-se na ideia de queda e expulsão do “Jardim do Éden” e na crença em que qualquer melhoria e salvação só são possíveis pela graça de Deus e não devido a esforços humanos. Por outro lado, admite que houve progresso desde os pagãos até à instauração do cristianismo e projecta um futuro paradisíaco (e.g., Santo Agostinho, na Cidade de Deus, século V). Além disso, ao introduzir a noção de que o mundo (e não apenas os seres humanos) tem uma história mais ou menos linear, ou seja, que se alterou desde a Criação e que se modificará até chegar ao Juízo Final, contribuiu para preparar o terreno relativamente à possibilidade de progresso secular em geral.

A convicção generalizada relativamente ao progresso humano só se espalhou após a Renascença. Por exemplo, em França, no século XVII, teve lugar a famosa Querela entre Antigos e Modernos, em que os partidários dos Antigos (e.g., Boileau e, em Inglaterra, Jonathan Swift) defendiam que nada se tinha produzido que chegasse à altura da Antiguidade clássica e os partidários dos Modernos afirmavam, pelo contrário, que os modernos eram superiores porque podiam construir sobre os alicerces elaborados pelas épocas anteriores. No século XVIII, com o iluminismo, influenciado pelos triunfos científicos de Galileu e Newton, a crença num progresso cultural inevitável e cada vez maior generalizou-se. O fim da Revolução Francesa abalou um pouco este optimismo, mas não o conseguiu eliminar. Por exemplo, o reverendo Thomas Malthus (1766–1834) escreveu o seu famoso livro (Essay on the Principle of Population) em 1798 para demonstrar que a população humana tende a crescer geometricamente mas os recursos apenas crescem aritmeticamente, de onde se conclui que, a menos que as pessoas refreiem a sua actividade sexual (concebida como só sendo lícita quando se trata de procriar), haverá sempre intensa competição por recursos e muita miséria. Esta visão parecia ir contra a crença iluminista no progresso, mas para Malthus a situação fora elaborada por Deus precisamente para encorajar as pessoas a se esforçarem, trabalharem e comportarem com virtude (i.e., pouco sexo).

Durante todo o século XIX e grande parte do século XX, a fé no progresso perdurou, afirmada por filósofos como Auguste Comte, John Stuart Mill, Herbert Spencer, Karl Marx e Friedrich Engels, e vários outros. No fundo, continuamos a subscrever esta ideia de progresso inevitável da cultura humana.

As ideias evolucionistas foram influenciadas pela noção de progresso cultural humano, estendendo essa ideia e tornando possível a concepção de um progresso já não só humano e cultural, mas biológico, i.e., dos seres vivos em geral. Mais tarde, a influência foi recíproca, ou seja, o próprio evolucionismo favoreceu a crença no progresso humano.

A hipótese de evolução surgiu em parte a partir de uma modificação da concepção da Grande Cadeia dos Seres (ou Scala Naturae), uma escala linear ascendente ordenando todos os seres, do mais simples até ao mais “perfeito”. Na sua versão inicial, esta cadeia remontava a Aristóteles, e foi muito difundida na Idade Média. A cadeia era obviamente estática e, na Idade Média, incluía tudo, desde os minerais, em baixo, até aos anjos, em cima, logo abaixo de Deus, passando pelas plantas e pelos animais, e assumindo, claro, que todos coexistiam no mesmo momento, sem alteração desde a Criação. Em versões posteriores, evolutivas, como as de Erasmus Darwin (o avô de Charles Darwin) e de Lamarck, a cadeia passou não só a ter uma dimensão temporal (os seres mais simples davam origem a seres cada vez mais complexos), mas a dividir-se em duas (uma para as plantas e outra para os animais, ficando os minerais fora da biologia) e a culminar no homem em vez de nos anjos. Assim, a vida tinha uma história (não ocorrera uma Criação única e definitiva) e essa história mostraria um progresso indo dos seres mais “simples”, como as criaturas unicelulares, aos invertebrados mais “complexos”, destes aos vertebrados, e finalmente atingindo o “apogeu” no homem. Ainda hoje essa ideia perdura em expressões do tipo “da bactéria ao homem”, como se a evolução seguisse um caminho previamente traçado para chegar finalmente até nós.

Erasmus Darwin (1731–1802), médico bem-sucedido e avô paterno de Charles Darwin, foi o primeiro autor a propor uma teoria evolutiva, quer num tratado em prosa, Zoonomia (1794, e reeditado pelo autor em 1801), quer, de modo ainda mais explícito, em verso, no livro póstumo The Temple of Nature (“O Templo da Natureza”, 1803). A evolução e o progresso estavam indissoluvelmente associados para Erasmus Darwin. A vida teve uma origem única (uma entidade microscópica inicial, microscopic ens) e desenvolveu-se, passando por fases sucessivamente mais aperfeiçoadas, até culminar, até ao momento, no homem, e, eventualmente (no futuro), em formas ainda mais perfeitas, visto que o processo de aperfeiçoamento continua a operar e continuará para todo o sempre (FOR EVER AND EVER, como escreveu Erasmus, com maiúsculas). O mecanismo desta mudança não era claro, mas Deus estava por detrás dele: Erasmus Darwin era crente, deís­ta, como muitos autores do século XVIII, para os quais Deus ainda era o Grande Arquitecto, o Autor de todas as coisas, embora posteriormente à Criação inicial do universo tivesse essencialmente deixado de interferir (os deístas, ao contrário dos teístas, não aceitavam a existência de milagres).


As especulações evolutivas de Erasmus Dar­win não foram tomadas muito a sério e assim foi Jean-Baptiste Antoine de Monet, chevalier de Lamarck (1744–1829), o primeiro autor a propor uma teoria evolutiva que teve algum efeito sobre os contemporâneos (mesmo que fosse sobretudo negativo). Lamarck ganhara credibilidade científica ao publicar obras em botânica (a primeira Flora completa de França, 1778) e depois em zoologia, em especial sobre invertebrados (termo inventado por ele), em tratados publicados em 1801 e 1815–1822, após se tornar curador dos invertebrados no Museu de História Natural de Paris (reorganizado após a Revolução Francesa). As suas ideias evolutivas estão subjacentes a várias das suas obras, mas foram principalmente dadas a conhecer na Philosophie Zoologique (“Filosofia Zoológica”, 1809). A sua teoria, tal como a de Erasmus Darwin, baseava-se na transformação da Scala Naturae, tornando-a dinâmica: os seres vivos mais simples (unicelulares) originam-se permanentemente por geração espontânea e depois transformam-se e aperfeiçoam-se ao longo do tempo até chegarem ao último estado da scala, que é o dos seres humanos. Lamarck foi mais claro do que Erasmus ao explicitar os mecanismos que levam os seres vivos a progredir. O primeiro mecanismo era uma “força que tende permanentemente a compor a organização” e que portanto levava os seres vivos a “melhorarem” linearmente. Mas, como os ambientes estão permanentemente a variar, outro mecanismo, a “influência das circunstâncias”, pode causar desvios relativamente à cadeia linear, produzindo ramificações, embora de menor importância. A sua capacidade permanente de mudança faz com que os organismos não se extingam, mas se transformem noutros, mais bem adaptados.Curiosamente, embora acreditasse firmemente numa tendência progressiva inerente aos seres vivos, Lamarck não aceitava claramente uma mudança direccional do mundo ao longo do tempo, visto que, para ele, haveria sempre espécies em todas as fases do “avanço”. Por essa razão, Lamarck pouco se interessou pelo registo fóssil que começava a ser conhecido na época e nunca acreditou na existência de extinção (segundo ele, as espécies aparentemente extintas cujos fósseis começavam a ser descritos ainda existiam algures na Terra). Embora a sua “força” motora nos pareça hoje milagrosa, Lamarck considerava-se um mecanicista (falava de fluidos orgânicos) e opunha-se ao “vitalismo” aristotélico. Ao contrário de Erasmus Darwin, não invocava a acção directa de Deus sobre a matéria viva.

As especulações evolutivas de Lamarck foram no entanto classificadas pelos seus contemporâneos como fazendo parte do seu lado menos científico, junto com teorias químicas já completamente ultrapassadas na época de Lavoisier e especulações meteorológicas delirantes (Lamarck estava convencido de que podia prever o clima de todo o ano e publicou almanaques com previsões para cada dia).

O inglês Charles Lyell (1797–1875) é um caso curioso, visto que foi dos poucos que, embora acreditasse no progresso humano, começou por negar não só o progresso biológico mas inclusivamente mudanças direccionais no registo fóssil. Lyell começou por ter uma formação de advogado, mas cedo se “mudou” para a geologia, a sua grande paixão. Foi o autor do famoso livro Principles of Geology: Being an Attempt to Explain the Former Changes of the Earth’s Surface by Reference to Causes now in Operation (“Os Princípios da Geologia: Uma Tentativa para Explicar as Mudanças Passadas da Superfície da Terra Invocando Causas hoje em Operação”), publicado em três volumes entre 1830 e 1833. Neste livro, Lyell defendeu a causa do que veio a chamar-se “uniformitarismo” (o nome foi inventado por um opositor), contra a ideia vigente em geologia, o “catastrofismo”. Segundo os geólogos catastrofistas, a sucessão de floras e faunas observáveis no registo fóssil explicava-se através de uma sucessão de catástrofes de magnitude superior ao que ocorria no presente e que haviam dizimado as espécies do passado. Após cada catástrofe, novas espécies surgiam (criadas directamente por Deus), substituindo as anteriores, e cada vez mais semelhantes às actuais, dado que Deus estava por assim dizer a “preparar o terreno” para a criação do homem. Lyell insinuou, como crítica, que essas “catástrofes” eram consideradas como tendo uma origem sobrenatural, o que não era necessariamente o caso: muitos “catastrofistas” apenas argumentavam que certos fenómenos como tremores de terra haviam sido mais violentos do que o que era observável no presente. Apenas a criação de novas espécies resultava da acção directa de Deus (e Lyell não se opunha a esta ideia).

No seu livro, Lyell avançou três hipóteses. Em primeiro lugar, as leis da natureza não se alteraram com o tempo: esta componente da teoria de Lyell não era controversa e era aceite por todos os contemporâneos. Em segundo lugar, a intensidade dos processos que existem no presente não se alterou com o tempo, ao contrário do que era afirmado pelos “catastrofistas”. Lyell acumulou uma impressionante quantidade de factos para apoiar a sua afirmação de que os fenómenos observáveis no presente, como o vulcanismo, os tremores de terra, a erosão pela água e pelo vento, a sedimentação, etc., são suficientes para explicar todas as observações do registo do passado. Por exemplo, no frontispício do livro, Lyell apresentou uma gravura das colunas do templo de Serápis em Pozzuoli para mostrar que se tinham mantido de pé (o que não seria possível se tivessem sofrido alterações violentas) apesar de terem sido submergidas no passado, como se demonstrava pelos vestígios de perfurações por bivalves marinhos. Esta componente da sua teoria, inicialmente controversa, acabou por conquistar a comunidade científica, dada a sua vantagem metodológica relativamente às teorias “catastrofistas”.

O terceiro elemento da teoria de Lyell era que a própria Terra não se alterou direccionalmente com o tempo. Esta sugestão parece-nos hoje (e assim pareceu aos seus contemporâneos) muito estranha, mas segundo Lyell a aparente direccionalidade do registo fóssil é um artefacto da preservação, e a Terra existe num estado global de equilíbrio, de modo que as faunas se substituem ciclicamente (daí a sua frase famosa: “o enorme iguanodonte pode reaparecer nos bosques, e o ictiossauro no mar, enquanto o pterodáctilo pode voltar a voar através de bosques de fetos gigantes”). A única excepção a este estado de equilíbrio sem alterações temporais irreversíveis é o ser humano. Nós, obviamente, surgimos uma única vez.

Dada esta ideia de que a Terra não mudou direccionalmente, mas apenas se alterou de modo cíclico, com repetições dos mesmos fenómenos, Lyell constituiu uma excepção em relação à crença contemporânea no progresso biológico. De facto, praticamente todos os cientistas admitiam que havia progresso biológico ao longo do tempo, mesmo antes de as ideias evolucionistas serem geralmente aceites. O progresso biológico podia ter ocorrido por saltos bruscos (e.g., após sucessivas catástrofes), e substituições dos seres de uma dada época por seres posteriores “superiores” (entenda-se mais perfeitos, melhores, ou seja, mais semelhantes aos humanos), mas praticamente ninguém duvidava de que ocorrera. Os processos que tinham levado a esse progresso não eram especificados, embora a ideia subjacente era que de algum modo se deviam à intervenção mais ou menos directa de Deus.

Lyell acabou por renunciar a esta parte da sua teoria uniformitarista. Em 1866 admitiu que a Terra havia de facto mudado ao longo do tempo – e que essa mudança havia, obviamente, sido progressista. Ou seja, logo que Lyell aceitou a ideia de direccionalidade, aceitou concomitantemente a ideia de progresso, como se as duas noções fossem inseparáveis. É sintomático que a “conversão” de Lyell ao progresso não foi devida à sua “conversão” às ideias evolucionistas do seu amigo Darwin (na realidade, Lyell nunca aceitou plenamente o mecanismo evolutivo proposto por Darwin, ou seja, a selecção natural), mas sim à sua admissão de que havia direccionalidade na história da Terra (e portanto já não podemos esperar que o iguanodonte ou o ictiossauro regressem...). A partir dessa admissão, o progresso biológico era automático e Lyell não o questionou.

Em 1844 surgiu em Inglaterra um livro de divulgação intitulado Vestiges of the Natural History of Creation (“Vestígios da História Natural da Criação”), delineando uma teoria evolutiva eminentemente progressista, segundo a qual leis de “desenvolvimento” (não especificadas mas semelhantes às leis que governam o desenvolvimento embrionário dos seres vivos mais complexos) estariam subjacentes à evolução dirigida (por Deus) dos seres vivos, com um objectivo final, o de produzir o homem. O último capítulo do livro é precisamente intitulado “Objectivo e condição geral da criação animada”. Nele o autor garante que “o sistema presente é apenas parte de um todo, uma etapa numa Grande Progressão, e a Compensação está garantida”. Segundo o livro, “o mundo inorgânico tem uma lei final abrangente, a GRAVITAÇÃO. O mundo orgânico, a outra grande secção de coisas terrenas, apoia-se de modo semelhante numa única lei, e esta é – DESENVOLVIMENTO”. Não fica claro se o autor dos Vestiges se considerava o Newton da biologia... O autor era na realidade um editor escocês bem-sucedido, Robert Chambers (1802–1883), que publicou Vestiges anonimamente, porque não queria arriscar a sua reputação (Vestiges só foi oficialmente assumido como sendo de Chambers na 12.ª edição, póstuma, em 1884). O livro foi atacado pela comunidade científica, em grande parte com razão porque continha inúmeras incorrecções factuais (chegando a sugerir que seres tão complexos como insectos eram produzidos por geração espontânea), embora muitas das críticas se devessem mais à sua ideia de evolução do que aos erros factuais. No entanto, essas críticas ajudaram à enorme popularidade do livro, o qual vendeu mais exemplares do que A Origem das Espécies. Mais uma vez vemos como ideias de mudança ao longo do tempo estavam indissoluvelmente associadas à ideia de progresso: i.e., essas mudanças só podiam ser concebidas como sendo no sentido de uma melhoria (entenda-se: no sentido da produção de seres cada vez mais semelhantes a nós), e o estado final (nós) estava predeterminado desde o início (tal como no caso do desenvolvimento do embrião).

Spencer foi o maior apologista da inevitabilidade do progresso. No seu tempo, foi considerado como um filósofo de primeira grandeza, e mais importante como pensador do que Darwin, embora tivesse sido subsequentemente esquecido a ponto de nem sequer ser referido por Bertrand Russell na sua História da Filosofia Ocidental. O próprio Darwin chamou-lhe “o maior filósofo vivo” numa carta, mas noutras cartas a outros correspondentes afirmou que Spencer o deixava sempre confuso e na sua Autobiografia (privada e escrita para os filhos) escreveu que as generalizações de Spencer, embora valiosas do ponto de vista filosófico, não lhe pareciam de qualquer utilidade científica. Thomas Henry Huxley, o grande defensor de Darwin, era amigo pessoal de Spencer, mas céptico relativamente às suas teorias ambiciosas, e disse uma vez que, para Spencer, a ideia de uma verdadeira tragédia era a de uma linda dedução destruída por um pequeno facto.

Spencer foi um defensor precoce da evolução, tendo sido influenciado pelo livro Principles of Geology de Lyell, por Lamarck (tal como Lyell o descrevera) e outros, incluindo Malthus, e provavelmente pelos Vestiges. A sua primeira publicação sobre evolução foi em 1852: The Development Hypothesis (“A Hipótese do Desenvolvimento”). Como muitos contemporâneos, Spencer usou a palavra evolução para designar quer o desenvolvimento embrionário quer as transformações evolutivas propriamente ditas. Segundo ele, a competição pelos recursos obrigaria à utilização crescente das faculdades mentais e levaria ao seu aumento durante a vida de um indivíduo. Ora isso estaria associado a uma diminuição da fertilidade, visto que a energia vital é limitada e se mais energia for investida no cérebro sobra menos para os órgãos genitais e para a fertilidade. O aumento das faculdades intelectuais durante a vida seria herdável e daria portanto origem a uma sucessão de formas cada vez mais inteligentes, culminando (obviamente) no homem inglês vitoriano. Neste, sempre de acordo com Spencer, ter-se-ia chegado perto de um equilíbrio populacional estável, porque a fertilidade teria diminuído relativamente não só aos animais como a populações humanas menos “evoluídas” e mais férteis, por exemplo os irlandeses (a grande fome da Irlanda ocorreu em 1848). Note-se que Spencer, solteiro, sem filhos e muito inteligente, seria um bom exemplo de “perfeição evolutiva”.

Em 1855, Spencer publicou uma nova obra, Principles of Psychology (“Princípios de Psicologia”), a qual, de acordo com a sua “modesta” opinião, seria colocada a par da obra de Newton, e em 1859 publicou um artigo intitulado “Progress: its law and cause” (“Progresso: a sua lei e causa”). Segundo Spencer, tudo (incluindo a física) estaria abrangido por uma vasta lei global de progresso e de desenvolvimento. Esta lei (tão abrangente como a da gravidade) consistiria numa mudança do “homogéneo” para o “heterogéneo”. Esta mudança iria desde a condensação da nebulosa homogénea inicial que originou o sistema planetário heterogéneo actual até ao aparecimento do homem. Entre os seres vivos, a progressão parecia óbvia a Spencer: os peixes seriam mais “homogéneos” do que os répteis (e.g., têm um corpo mais simples, não têm membros), que por sua vez seriam mais “homogéneos” do que as aves e os mamíferos.

Após ter proposto esta lei universal, Spencer passou o resto da sua vida a preencher os detalhes. Não mostrou muito apreço pela teoria evolutiva de Darwin, considerou a selecção natural como um mecanismo absolutamente menor e defendeu energicamente as ideias de hereditariedade das características adquiridas, as quais considerava necessárias e suficientes para o processo evolutivo.

Convém sublinhar que as ideias de Spencer só começaram a ter repercussão após a publicação de A Origem das Espécies de Darwin em 1859 – antes disso ele não convencera ninguém relativamente à ocorrência da evolução. Relativamente ao progresso, pelo menos no seu aspecto pré-evolutivo, não era necessário convencer as pessoas, dado que a existência de progresso, com os ingleses do sexo masculino no cume, era considerada evidente por quase todos. Após a publicação de A Origem das Espécies, como veremos, a ideia de progresso biológico, com os seres humanos no cume, foi praticamente imediata.

N.R. – Os subtítulos deste texto são adaptações das divisões originais do livro.


SUPER 152 - Dezembro 2010

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Novo fóssil de pé de hominídeo põe fim à solidão da australopiteca Lucy

Durante décadas pensou-se que o Australopithecus afarensis, a espécie a que pertence a famosa Lucy, da África austral, era o único hominídeo no período entre 3,9 e 2,9 milhões. Afinal não era. Lado a lado, há 3,4 milhões de anos, havia outro hominídeo de que se sabe muito pouco. Apenas oito ossos do pé direito de um indivíduo desta espécie foram encontrados em 2009.

Tinha, tal como os gorilas, o dedo grande oponível, eficaz para quem trepava às árvores, mas era bípede como Lucy e caminhava com os dois pés a distâncias curtas. A descoberta, publicada nesta quarta-feira na Nature, ainda não valeu a junção de um elemento novo à árvore evolutiva dos hominídeos: são necessários mais dados, mas, para já, aumentou a complexidade da história humana e do aparecimento do bipedismo.

“Esta descoberta mostra-nos pela primeira vez que existia uma outra linhagem de hominídeos contemporâneos da Lucy. Temos um animal que estaria nas árvores durante uma parte significativa do tempo, mas quando descia até ao chão apoiar-se-ia nos metatarsos [ossos dos pés] laterais. Isto contrasta com o Australopithecus afarensis, que não subia às árvores e mostra as diferenças entre os dois padrões de locomoção”, explica Bruce Latimer, da Case Western Reserve University, de Cleveland, EUA. “Honestamente, pensaria que o Australopithecus afarensis era uma espécie sozinha”, diz o especialista, um dos autores do artigo.

Os oito ossos com 3,4 milhões de anos foram encontrados em Fevereiro de 2009, região de Afar, no centro da Etiópia. São quatro metatarsos do pé direito (os ossos que vêm antes de cada falange), três falanges proximais e uma falange média. A descoberta está longe de dar uma visão completa do hominídeo desconhecido como fez o esqueleto da Lucy, descoberto em 1974, em relação ao Australopithecus afarensis. Ou como aconteceu com a Ardi, encontrada em 1994 mas apresentada ao mundo só em 2009. Considerada por muitos a avó da humanidade, a Ardi, um homínideo mais velho do que a Lucy, viveu há 4,4 milhões de anos e pertence à espécie Ardipithecus ramidus.

“Os primeiros hominíneos [o ramo humano da evolução] são caracterizados por uma grande diversidade que se reflecte nos vários géneros e nas muitas espécies existentes entre 7 e 2,5 milhões de anos. A passagem para o bipedismo terá sido gradual e em função das características ambientais e, consequentemente, hábitos dietéticos”, explica  Eugénia Cunha, antropóloga e professora da Universidade de Coimbra, que não esteve envolvida no trabalho.

A Ardi é importante para esta história, porque existiu um milhão de anos antes do dono do novo fóssil, na Etiópia, e os ossos do dedo grande mostram que ele era oponível, de quem vivia nas árvores. Mas o resto do pé indica que mantinha um caminhar a duas pernas, embora com um estilo mais coxo do que os hominídeos que surgiram depois. A espécie da Lucy, por exemplo, já tinha os ossos do dedo grande a acompanhar os dos outros dedos do pé, tal como o pé humano actual. Um sinal claro de uma espécie que fazia a vida no chão.

O novo fóssil tinha características intermédias. “Este pé parece ser uma continuação/evolução do género Ardipithecus de há 4,4 milhões de anos. Nesse aspecto é interessante verificar que esse género poderá ter tido continuidade”, avalia a investigadora portuguesa. Caminhava de forma bípede, porque a ligação entre os metatarsos laterais e as falanges tinha as características que permitiam dar o impulso com os dedos dos pés para iniciar o próximo passo. Mas não tinha o arco do pé, porque o dedo grande era oponível. “Provavelmente usava o dedo grande para se equilibrar”, sugeriu Bruce Latimer, numa conferência de imprensa. “Tenho dificuldade em pensar como é que esta espécie caminharia”, admite, rindo-se.

A descoberta reforça, no entanto, o que a Ardi já tinha mostrado. O antepassado de chimpanzés, gorilas e humanos (e tudo o que existiu entre estas espécies), um ser muito mais antigo do que Ardi, que viveu há cerca de dez milhões de anos, não teria um aspecto parecido com os primatas de hoje, como se pensou durante décadas. O gorila e o chimpanzé divergiram tanto desse antepassado como nós. “O pé do chimpanzé é um modelo impróprio e pobre para o que seria o pé ancestral humano. É muito diferenciado, e agora podemos ver isto”, reflecte Latimer. Faltam mais fósseis do esqueleto deste hominídeo para os cientistas conseguirem dizer que é uma nova espécie e para se conhecer os seus hábitos alimentares. “Este pé não é necessariamente uma nova espécie. A história da paleontologia humana diz-nos que devemos ser prudentes relativamente à criação de novas espécies. Os autores são cautelosos a esse respeito”, contextualiza Eugénia Cunha, explicando que pode ser uma “continuidade do Ardipithecus”.

Mas o contexto geológico responde a muitas questões sobre que local era aquele há 3,4 milhões de anos. “Era um ambiente aquático, os rios desaguavam numa massa de água perene, haveria floresta à beira da água, o que é consistente com o registo fóssil de uma criatura que trepava às árvores”, descreve Beverly Saylor, outra autora do artigo.

Estes dados sobre o ambiente são importantes. O registo fóssil da espécie da Lucy estende-se ao longo de um milhão de anos. Além de se sobrepor temporalmente à nova descoberta, muitos achados estão a poucos quilómetros de distância do fóssil do pé. Por isso, existiam duas espécies a servirem-se de nichos ecológicos diferentes na mesma região. Uma ficava em cima das árvores, a outra, por contraste, optou pelo chão. “Temos tipos divergentes de bipedismo, um como o da Lucy, a andar de forma erecta, decidida a caminhar no chão”, interpreta Latimer. O outro a ficar nas árvores.

Uma conclusão imediata é que, afinal, a variedade de hominídeos foi maior, assim como as suas morfologias e adaptações ao ambiente. Num artigo de análise da Nature, Daniel Liberman, da Universidade de Harvard, refere que “são necessários mais fósseis para determinar qual o corpo que acompanha este pé e para perceber que características [do bipedismo] evoluíram uma só vez ou várias vezes”. É preciso voltar ao terreno à procura das próximas ossadas.

sábado, 8 de agosto de 2015

E depois de nós?




O avanço imparável do trans-humanismo
Os progressos tecnológicos e científicos vão permitir-nos intervir no corpo para eliminar deficiências congénitas e potenciar capacidades. A humanidade ultrapassa-se a si mesma.

Mais de sessenta cientistas, peritos e “tecno-intelectuais” foram convocados pela Universidade de Harvard (Estados Unidos), no Verão passado, para debater um tema tão transcendental como a capacidade humana para alterar a sua própria evolução. Os presentes expuseram as suas previsões sobre o futuro da ciência e da tecnologia, assim como sobre o impacto destas no fenómeno da trans-humanização. O prolongamento da vida humana, o domínio dos circuitos do cérebro, a robótica, a nanotecnologia, a inteligência artificial e as técnicas para aperfeiçoar a espécie humana foram apenas algumas das ideias que se discutiram na reunião, promovida pela Humanity+, uma ONG conhecida até há pouco tempo sob o nome de World Transhumanist Association.

A Humanity+ é a organização mais representativa do chamado “movimento trans-humanista”, cujos adeptos estão convencidos de que os avanços tecnocientíficos vão permitir modificar ad libitum o corpo e a mente do homem, deixando em segundo plano a evolução biológica. A ideia fundamental é que os seres humanos serão um dia capazes de se redesenharem a si próprios. Desse modo, poderão escolher o tipo de organismo em que pretendem transformar-se: um ciborgue (formado por matéria viva e dispositivos electrónicos), um siliborgue (organismo criado com silício a partir de um ADN artificial), um simborgue (indivíduo reencarnado que reside num meio interligado) ou qualquer outra criatura imaginável que a tecnologia permita congeminar.

Todas essas possíveis configurações parecem estar mais perto do que pensamos, devido à aceleração do conhecimento tecnológico e científico: uma eclosão que foi bap­ti­zada com o nome de “singularidade”. Raymond Kurz­weil, o guru que vaticinou que um com­pu­tador ganharia uma partida de xadrez a um hu­mano, sentenciou que faltam apenas duas ou três décadas para esse momento chegar.

Diz o Antigo Testamento que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Os maias acreditavam que as divindades colheram milho, deram-lhe forma humana e insuflaram-lhe vida. Um antigo mito egípcio conta que Cmun (divindade com cabeça de carneiro) moldava deuses e homens no seu torno de oleiro. As mitologias de diferentes civilizações e culturas deixaram explícito que o homem resultou de um trabalho divino, não humano.

Graças à teoria da evolução, completada nos séculos XVIII e XIX, sabemos que somos produto de milhões de anos de adaptação. Talvez por isso, a convicção de que os seres humanos podem intervir e alterar o seu próprio processo evolutivo já foi considerada “a ideia mais perigosa do mundo”, como assinalou Francis Fukuyama, conhecido politólogo e ensaísta da Universidade Johns Hopkins (Estados Unidos).

As vozes críticas, para deitar mais lenha na fogueira, esclarecem-nos com relatos sobre homens que brincaram aos deuses e tiveram um final triste e exemplar. A ficção literária do dr. Frankenstein, empenhado em ressuscitar a matéria morta, recorda-nos que há experiên­cias que a ciência nunca deveria empreender. E obras de ficção como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, alertam para o modo como os avanços tecnológicos podem voltar-se contra a sociedade se caírem nas mãos de determinados regimes.

Dura oposição
As críticas ao trans-humanismo são em grande número e baseiam-se em diferentes argumentos. O primeiro é que não vamos dispor das tecnologias necessárias para efectuar essas modificações. Porém, Kurzweil, que é um dos mais acérrimos defensores da singularidade, faz questão de recordar a lei de Moo­re, segundo a qual o número de transístores de um chip duplica (mais ou menos) a cada 18 meses. Segundo Kurzweil, essa norma não se aplica apenas aos computadores, mas também a outras tecnologias.

“Quando se iniciou a leitura da sequência do genoma humano, em 1990, os detractores disseram que, devido à velocidade a que se conseguia efectuar a operação, levaria milhares de anos para completar todo o mapa”, assinala, no livro The Singularity Is Near. Em 13 anos, foi possível ler os 3000 milhões de “letras” que integram o nosso ADN.

Kurzweil sublinha que não foi só a velocidade de leitura que aumentou; o custo também diminuiu. O preço para sequenciar cada par de bases (as “letras” genéticas) passou de dez dólares para cerca de dois cêntimos. Essa redução do custo, associada a um crescimento tecnológico quase exponencial, é também aplicável a outras áreas de estudo, como a da exploração da mente humana.

O que impele a filosofia trans-humanista é a erradicação de qualquer forma de sofrimento causado por doenças, pelo envelhecimento ou mesmo pela morte. O objectivo é alcançar as máximas potencialidades em termos de desenvolvimento humano. Porém, nesse caso, o que aconteceria a quem não tivesse acesso aos avanços que permitem um tal desenvolvimento? Por exemplo, os progressos eugenésicos proporcionariam mais privilégios aos poderosos, o que iria criar uma ordem social semelhante à descrita em Admirável Mundo Novo, com castas de indivíduos superiores e inferiores já predestinados antes de nascerem.

Se a evolução tecnológica conseguir impor-se à biológica, se todos os progressos previstos se materializarem, seremos obrigados a redefinir o que é um ser humano. Nas tecnologias do futuro anunciadas pelos trans-humanistas, ainda se vislumbram vestígios de ficção científica, mas há dez anos ninguém teria conseguido prever o que a internet e as tecnologias da comunicação nos iriam trazer e a forma como transformariam a sociedade. Como saber, agora, o que nos espera no futuro? Talvez David Orban tenha a resposta. Vejamos.

Trans-humanista chefe
David Orban (nascido em Budapeste, em 1965) presidiu, até há pouco tempo, à Humanity+, a principal organização que divulga, actual­mente, a filosofia trans-humanista. É também assessor da Universidade da Singularidade (localizada em Silicon Valley, na Califórnia), uma instituição académica que recebe apoio económico da Google e da NASA, entre outros, e que possui cursos sobre as tecnologias mais avançadas.

Este visionário observa o passado para descrever um futuro surpreendente. Orban está firmemente convencido de que um salto tecnológico inédito nos permitirá mudar como espécie, mas irá também contribuir para uma maior justiça social. Por outro lado, não se importa que isso signifique alterar as características que nos definem como Homo sapiens para dar as boas-vindas a uma união estável entre homem e máquina.

O objectivo do trans-humanismo é conseguir construir o ser humano perfeito?
Sim, creio que a perfeição é um ideal que perseguimos, mas, para essa ideia fazer sentido, temos de inseri-la num contexto. Precisamos de entender quais são as condições que nos tornam humanos, em que meio vivemos e que alterações no avanço tecnológico e na compreensão do mundo poderão exercer um impacto na natureza humana e no conjunto da sociedade.

Qual a relação entre a singularidade e o trans-humanismo?
Os dois movimentos e os seus adeptos acreditam que nos espera um futuro radicalmente diferente do passado. Durante o século XX, foi estabelecida a infraestrutura da internet, o que transformou e exerceu um profundo impacto em todas as tecnologias e ramos do conhecimento. Os transportes, as comunicações, a biologia e a medicina foram enormemente influenciados pelo que aconteceu antes.

Nesse caso, que futuro nos espera?
A singularidade diz-nos que vai chegar um ponto de inflexão. Quando pomos água a aquecer, a temperatura aumenta pouco a pouco, de 30 para 40, 50, 70 graus, e podería­mos pensar que essa progressão continuaria indefinidamente. Todavia, sabemos que as coisas não funcionam assim; que algo muito diferente acontece quando a água atinge determinada temperatura, pois deixa de aquecer e começa a ferver para se transformar em vapor. Os adeptos da singularidade não têm dúvidas de que, a partir de um ponto de inflexão, o nível humano será ultrapassado, que a inteligência artificial é possível, que irá estar disponível dentro de poucos anos e que vai mudar as regras do jogo.

Até que ponto se irão alterar essas regras?
A singularidade permitirá que seres humanos e máquinas se unam para formar um novo tipo de organismo híbrido. A ideia é que, tal como nos apercebemos de que se aproxima uma tempestade porque ouvimos os trovões ao longe, também já há sinais dessas mudanças revolucionárias que foi possível começar a interpretar.

Não lhe parece que, no actual estado de desenvolvimento tecnológico, pensar em termos de um organismo híbrido, metade máquina, metade humano, soa mais a ficção do que a rea­li­dade previsível?
Arthur C. Clarke, que também tinha vastos conhecimentos científicos, chegou a dizer que as tecnologias podem ser indistinguíveis da magia. No entanto, a verdade é que a magia desaparece quando se entende como funciona. Daqui a 20 ou 30 anos, quando a inteligência artificial for acessível à escala humana e os híbridos homem-máquina estiverem disponíveis, as pessoas habituar-se-ão e começarão a encará-los como algo normal.

Há alguma tecnologia actual que nos ajude a fazer uma ideia de como será essa combinação?
Não é preciso imaginar coisas muito extraor­dinárias. Quando falamos em organismos híbridos entre humanos e máquinas podemos pensar em coisas correntes às quais já estamos habituados. Eu, por exemplo, sou um ciborgue, pois uso lentes de contacto, que são um produto de alta tecnologia. Imaginemos que vivia numa sociedade primitiva e que tinha de caçar para obter alimento. Seguramente, estaria morto há duas décadas. O facto de poder usar óculos ou lentes de contacto aumenta as minhas possibilidades de sobreviver. Se pensarmos bem, esse tipo de progressos repete-se constantemente na actual sociedade. No futuro, compreenderemos mais pormenorizadamente como funciona o nosso metabolismo e o nosso cérebro, e poderemos influir na forma como trabalham.
justiça social

Fala em avanços tecnológicos que irão melhorar a vida dos indivíduos, mas também menciona frequentemente os problemas de justiça social que acarretam...
Parece-me evidente que há muitas coisas que não funcionam, tanto para aqueles que vivem em sociedades opulentas como para os que nasceram em regiões desfavorecidas e têm de abandonar o seu país de origem em busca de melhores condições de vida. É precisamente aí, nas sociedades em que as pessoas são extremamente pobres, que se torna mais evidente que o mundo deve mudar para aumentar as oportunidades e para que haja maior justiça social.

E a tecnologia vai resolver esses problemas?
Tomemos um exemplo concreto. Na década de 1960, um grupo de cientistas e economistas vaticinou que milhares de milhões de pessoas iriam morrer de fome num prazo de 20 anos. Não só isso não se verificou como, graças à nossa capacidade para aumentar a produção de alimentos, fizemos subir de forma inesperada o número de calorias disponível para cada cidadão. A Índia, o Sueste Asiático ou a China, que eram zonas tremendamente pobres, viram aumentar de um modo muito positivo a sua qualidade de vida. Isso deve-se à tecnologia, ao recurso aos transportes, à logística, aos fertilizantes e à produção agrícola. Tudo isso, por sua vez, permite a universalização da educação.

Acha que seríamos o que somos, como espécie, sem a tecnologia?
O Homo sapiens deixou África e conseguiu estabelecer-se em todos os habitats possíveis: ocupou todos os nichos ecológicos do planeta e demonstrou que é inacreditavelmente adaptável. Devemos isso à tecnologia. Agora, chegou a altura de nos interrogarmos sobre se essa adaptabilidade irá atingir um limite. Um dos possíveis resultados das actuais mudanças e dos futuros avanços a curto prazo é que a tecnologia venha a tornar-se autónoma, isto é, que possa tomar decisões por si própria. Assim, irá depender de nós estarmos ou não preparados para o mundo de amanhã, pois esse mundo não vai deter-se para ficar à nossa espera.

Como nasceu o movimento H+
A espécie humana pode, se quiser, transcender-se a si própria, não apenas globalmente – um indivíduo aqui, de uma maneira; outro indivíduo acolá, de outra maneira –, mas também integralmente, como humanidade. Precisamos de um  nome para essa nova crença. Talvez ‘trans-humanismo’possa servir: o homem continua a ser homem, mas transcende-se a si próprio, concretizando novas possibilidade de, e para, a sua natureza humana.” Foi desta forma que se baptizou oficialmente o termo trans-humanismo, cujo símbolo é “H+”.

O texto, revelador, é da autoria de Julian Sorell Huxley (1887–1975) e surge no ensaio Novas Garrafas para Vinho Novo, publicado em 1957. Além de irmão do autor de Admirável Mundo Novo, Julian foi também um distinto biólogo e humanista, e um dos primeiros divulgadores científicos da história.

O britânico foi um fervoroso defensor do aperfeiçoamento da espécie humana através da ciência e da tecnologia. No mesmo ensaio, Julian Huxley sentenciava: “Creio no trans-humanismo. Chegará a altura em que a espécie humana terá alcançado o limiar de um novo tipo de existência, e será tão diferente de nós como nós o somos do Homo erectus. O homem estará, então, consciente do seu verdadeiro destino.”

Pronto para um back-up cerebral?
O empenho em proteger-se de acidentes fatais e um certo desejo de imortalidade levou os trans-humanistas a acreditar numa tecnologia do futuro, a transferência mental ou mind uploading. O processo (que, por enquanto, ainda pertence ao domínio da ficção científica) consistiria em efectuar uma cópia de segurança de toda a informação contida na nossa mente. Isso permitiria transferi-la para um dispositivo independente do cérebro, como um computador ou outro mecanismo alojado dentro de um robô humanóide, por exemplo;  a informação armazenada poderia mesmo voltar a ser implantada noutro encéfalo.

Numa das páginas criadas pelos adeptos desta ideia (http://minduploadingproject.org), assegura-se que a técnica estará pronta entre 2013 e 2025. Os trans-humanistas indicam também que, com o início da transferência cerebral, serão criados dois universos paralelos: um de realidade virtual, em que a existência não estará limitada pelo tempo, mas pelo desejo de viver, e outro tal como o conhecemos.

A ideia do mind uploading é tão inovadora e transgressora como polémica. Há numerosos detractores que a criticam e a consideram irrealista; argumentam que essa emulação do cérebro nunca poderia chegar a funcionar como uma autêntica mente humana. Referem, igualmente, o aspecto filosófico da questão, pois o conceito de identidade diluir-se-ia no novo contexto.

B.M.

SUPER 155 - Março 2011
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